16/06/2026
Documentário

Camelos Também Choram

Numa comunidade de pastores nômades no sul da Mongólia, surge um problema quando uma fêmea de camelo dá à luz a um raro filhote branco. Ela o rejeita, recusando-se a amamentá-lo. Os pastores procuram alimentá-lo, mas temem pela sua sobrevivência. Decidem, então, recorrer ao músico da cidade, para que execute um ritual milenar, capaz de reconciliar a mãe e o filho.

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Não há nenhuma metáfora no sugestivo título deste documentário. É de camelos que se trata e eles realmente derramam lágrimas. Esta sinceridade inicial impregna toda a proposta do filme, uma pequena empreitada multicultural, uma co-produção alemã, filmada na Mongólia, com um diretor mongol, outro italiano, e que rompeu fronteiras ao ser indicado ao Oscar de documentário em 2005, vencendo um prestigioso troféu do Sindicato dos Diretores da América (DGA) no gênero.

Camelos Também Choram atravessa com uma contagiante autoconfiança a delicada fronteira que separa a clareza da ingenuidade. Não há nada de ingênuo na desarmante espontaneidade com que os diretores acreditam no poder de sua câmera, compondo um documentário narrativo, como eles mesmo dizem, onde a narração se conduz em muitos momentos apenas nas imagens – recuperando o espírito pioneiro de um Robert Flaherty em Nanook, o Esquimó (1922) e O Homem de Aran (1934).

Nesta comunidade nômade instalada nos confins do deserto de Góbi, tudo é provisório. Até a paisagem, transformada pelo poder de constantes tempestades de areia. As casas, embora robustas, são dobráveis, fáceis de carregar no lombo de camelos, o meio de transporte oficial destes pastores. Por isso é que estes animais são tão essenciais, embora cabras e ovelhas sejam até em maior número.

Camelos por aqui têm nomes, o que ilustra até que ponto animais e pessoas são interdependentes neste modo de vida natural, primitivo e milenar. Assim, os protagonistas verdadeiros desta história atendem pelo nome de Ingen Temee, a mãe que rejeita o primeiro filhote, por ser branco, e o filhote, chamado Botok. Em torno deste pequeno drama, mobiliza-se todo o esforço da numerosa família humana, composta de pai, mãe, três crianças e alguns avós e bisavós. Quatro gerações que convivem harmoniosamente em pouco espaço, na casa comunitária, com recursos naturais tão escassos quanto o espaço interno. Uma escassez que alimenta uma solidariedade profunda e um compartilhamento sereno de todos os bens.

Aliás, dinheiro tem pouco valor aqui. Não há TV, videogame nem shoppings – o que seria o pesadelo de um adolescente urbanóide. Mas as crianças aqui parecem tão bem resolvidas e tranqüilas como se nada disso existisse.

É claro que todo esse arsenal da modernidade existe bem perto, como demonstra o passeio dos dois meninos à cidade mais próxima – a 50 km, que eles percorrem no lombo de camelos. No caminho, vêem-se antenas parabólicas e motocicletas. Na cidadezinha, há TV – sonho de consumo do menininho Ugna – e computadores. O modo de vida dos pastores nômades está claramente em extinção, mesmo na remota Mongólia. O que a câmera sensível dos diretores consegue mostrar, porém, é a surpreendente integridade desta cultura. Por isso é que se acredita totalmente no ritual encenado para recuperar o amor da mãe-camelo pelo filhote rejeitado, através da música de um violinista trazido da cidade – um ritual em que as fronteiras entre homens e animais mais uma vez mostram-se tão tênues e se impõe a força de um mistério chamado natureza.

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