Camelos Também Choram atravessa com uma contagiante autoconfiança a delicada fronteira que separa a clareza da ingenuidade. Não há nada de ingênuo na desarmante espontaneidade com que os diretores acreditam no poder de sua câmera, compondo um documentário narrativo, como eles mesmo dizem, onde a narração se conduz em muitos momentos apenas nas imagens – recuperando o espírito pioneiro de um Robert Flaherty em Nanook, o Esquimó (1922) e O Homem de Aran (1934).
Nesta comunidade nômade instalada nos confins do deserto de Góbi, tudo é provisório. Até a paisagem, transformada pelo poder de constantes tempestades de areia. As casas, embora robustas, são dobráveis, fáceis de carregar no lombo de camelos, o meio de transporte oficial destes pastores. Por isso é que estes animais são tão essenciais, embora cabras e ovelhas sejam até em maior número.
Camelos por aqui têm nomes, o que ilustra até que ponto animais e pessoas são interdependentes neste modo de vida natural, primitivo e milenar. Assim, os protagonistas verdadeiros desta história atendem pelo nome de Ingen Temee, a mãe que rejeita o primeiro filhote, por ser branco, e o filhote, chamado Botok. Em torno deste pequeno drama, mobiliza-se todo o esforço da numerosa família humana, composta de pai, mãe, três crianças e alguns avós e bisavós. Quatro gerações que convivem harmoniosamente em pouco espaço, na casa comunitária, com recursos naturais tão escassos quanto o espaço interno. Uma escassez que alimenta uma solidariedade profunda e um compartilhamento sereno de todos os bens.
Aliás, dinheiro tem pouco valor aqui. Não há TV, videogame nem shoppings – o que seria o pesadelo de um adolescente urbanóide. Mas as crianças aqui parecem tão bem resolvidas e tranqüilas como se nada disso existisse.
É claro que todo esse arsenal da modernidade existe bem perto, como demonstra o passeio dos dois meninos à cidade mais próxima – a 50 km, que eles percorrem no lombo de camelos. No caminho, vêem-se antenas parabólicas e motocicletas. Na cidadezinha, há TV – sonho de consumo do menininho Ugna – e computadores. O modo de vida dos pastores nômades está claramente em extinção, mesmo na remota Mongólia. O que a câmera sensível dos diretores consegue mostrar, porém, é a surpreendente integridade desta cultura. Por isso é que se acredita totalmente no ritual encenado para recuperar o amor da mãe-camelo pelo filhote rejeitado, através da música de um violinista trazido da cidade – um ritual em que as fronteiras entre homens e animais mais uma vez mostram-se tão tênues e se impõe a força de um mistério chamado natureza.
