19/07/2026
Drama

Tartarugas Podem Voar

No Curdistão, na fronteira entre o Iraque e a Turquia, amontoam-se em campos de refugiados dezenas de meninos e meninas órfãs. O líder local é o garoto Satélite, especializado na instalação de antenas de TV. Chega por ali Henkov, que perdeu os dois braços na explosão de uma mina, com a irmã, Agrin, e um garotinho de dois anos, Riga. Há um triste segredo no vínculo entre os três recém-chegados. E a Guerra do Iraque está prestes a começar.

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Este é um filme sobre crianças que costumam ser invisíveis para os senhores da guerra. Elas estão do lado de dentro da fronteira que a interminável Guerra do Iraque destrói cotidianamente. São os órfãos de várias guerras antes desta – Irã x Iraque, guerra do Golfo, o nome pouco importa – que ostentam na carne as cicatrizes do tempo absurdo em que lhes foi dado viver. Meninos e meninas mutilados no corpo e na alma, privados de infância, mas não de esperança, ternura e um insistente apego pela vida. Mas não todos.

É um filme sombrio. Na primeira imagem, uma menina, Agrin (Avaz Latif), contempla o precipício, uma metáfora poderosa da situação de toda a sua geração. Apesar de não parecer ter mais do que 12 anos, ela tem um semblante espantosamente triste, como se tivesse vivido bem mais do que a sua idade poderia permitir. Numa situação normal, ela nunca teria conhecido o pesadelo dos soldados invasores de aldeias, assassinos, estupradores. Mas ela conheceu e sua infância acabou naquele momento. Agora faz parte de um grupo de refugiados nômades, ao lado do irmão Henkov (Hiresh Feysal Rahman) e do pequeno Riga (Abdol Rahman Karim). Henkov perdeu os dois braços, possivelmente na explosão de uma das muitas minas que enchem os campos. Tem o dom da profecia, mas nestes tempos obscuros, isto mais cheira a maldição do que a dom. Uma estranha rejeição a Riga atormenta Agrin, enquanto Henkov procura estimular sua ternura. Dilema com pouca esperança e com muito drama.

Na aldeia onde se refugia agora o trio, o número de barracas é bem maior do que o de casas em pé, devido aos bombardeios. O líder inconteste da comunidade de meninos desgarrados atende pelo apropriado apelido de Satélite (Soran Ebrahim). Tudo porque, entre seus muitos talentos, um dos mais lucrativos atualmente é o de instalar antenas, parabólicas ou não, que permitam aos moradores acessar os canais internacionais e saber notícias sobre a iminente invasão americana. É o começo de 2003, pouco antes do início da Guerra do Iraque.

É uma história quase toda vivida pelos meninos, em que os adultos entram como coadjuvantes. E disso ela extrai sua poderosa comunicação. Em pouco tempo, cria-se uma empatia também com os dois lugares-tenentes de Satélite, o chorão Shrikooh (Ajil Zibari) e o elétrico Pashow (Saddam Hossein Feysal), cuja agilidade nem mesmo o uso de uma muleta parece atrapalhar.

O diretor-roteirista de origem curda Bahman Ghobadi (de Tempo de Embebedar Cavalos e Exílio no Iraque) gosta de olhar os problemas de frente. Não teme apresentar a infância como um tempo de inquietação e tristeza profunda, quando se rouba às crianças o tempo que deveriam ter para crescer. Isso é um luxo fora do alcance destes meninos da guerra, a quem Ghobadi fornece uma poderosa visibilidade. Não há como ficar indiferente a este filme.

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