Chame de Desejo de Matar para a era das celebridades. No entanto, o filme de Charles Bronson falava diretamente com a massa, perguntando algo como ‘o que você faria se sua família fosse impiedosamente assassinada?’. E acabou ganhando quatro continuações. Já este é um ato de vaidade de um produtor que ganhou muito dinheiro jorrando sangue em A Paixão de Cristo e agora se dá ao luxo de queimá-lo como bem entender.
Gibson não apenas é produtor, como também serve de modelo para o personagem central, Bo Laramie (Cole Hauser, um ator quase desconhecido de terceiro time). Ele é praticamente um caipirão que tirou a sorte grande, estrelou um filme de ação de sucesso e ficou muito rico. Mesmo assim, mantém-se fiel à sua mulher e ama o filho incondicionalmente. No entanto, ele descobre que a fama tem seu preço (algo meio ingênuo do filme, afinal qualquer aspirante a ser um Big Brother já sabe disso), e sua vida é invadida pelos paparazzi.
Esses profissionais, por sua vez, são a escória, o nível mais baixo da cadeia alimentar. Sempre bêbados, drogados e que fazem do ofício de tirar fotos uma vingança pessoal (irônico utilizar o meio de trabalho para esses fins, não?). Enquanto Bo é o marido fiel, o pai ideal, o amigo perfeito – vítima desses abutres da mídia.
Bo se assusta ao ver fotos dele nu com a mulher (e não uma amante) na capa de um tablóide. Mas só se enfeza de verdade quando esses inescrupulosos parasitas tiram fotos de seu filho no clube. Ele parte para a agressão típica da situação, dá uns sopapos no fotógrafo (vivido por um insuportável Tom Sizemore) e quebra a câmera. Mas os fotógrafos não deixam barato e depois de uma festa causam um acidente (à la Princesa Diana), deixando o filho de Bo em coma profundo.
A justiça acaba recomendando um tratamento psicológico para Bo enfrentar a situação. Mas após umas duas sessões (numa delas, ele encontra Gibson) o astro em ascensão decide resolver o problema por conta própria, eliminando um a um os quatro parapazzi responsáveis pelo acidente.
Não dá para esperar algo muito profundo ou que suscite discussões vindo de um produtor que fez o sanguinolento A Paixão de Cristo. Paparazzi nada mais é do que um filme de vingança contaminado pela hipocrisia de um astro – com participações de amiguinhos –, que usa o cinema para uma vingança pessoal. A hipocrisia chega a níveis tão altos que o longa é co-produzido pela 20th Century Fox, de propriedade de Rupert Murdoch, dono de jornais que só devem publicar fotos tiradas por lordes.
O roteiro tem detalhes às vezes absurdos. Bo se espanta ao ver tantos jornalistas e fotógrafos na pré-estréia de seu filme. Como será que ele imaginava que as suas declarações chegavam ao jornal? Ele nunca ligou a televisão em casa? O retrato que é pintado dele, de um homem decente e honesto, ‘forçado’ a fazer justiça com as próprias mãos é patético de tão ingênuo. Diferente da solução final. Se vivêssemos num mundo ‘idealizado’ por Gibson, provavelmente não seria algo muito diferente daquilo que o mundo teria sido tivesse o nazismo triunfado.
No final das contas, Paparazzi é um tiro que saiu pela culatra. Gibson se ‘vingou’ parcialmente dos fotógrafos –o filme entrou e saiu quase que despercebido nos EUA -, não fez muito dinheiro, nem atingiu os leitores de tablóides. Com o filme, o público desse tipo de revista pode até sentir um pouquinho de culpa da próxima vez que vir Daniela Cicarelli descabelada, borrada e chorando na capa de Caras, mas não vai ser esse filme que fará com que eles cancelem a sua assinatura.
