25/06/2026
Documentário

Memória do Saqueio

Fernando Solanas dirige esse documentário que tem como foco a crise econômica que assolou a Argentina nos últimos anos. Mostrando da corrupção do governo ao desespero do povo, o cineasta faz um retrato de uma nação que tenta se reerguer depois do choque.

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”Se você vive na Argentina e não sabe que a cada dez anos o país explode, e que a cada quinze alguém confisca o seu dinheiro, é porque não sabe onde mora”. As opiniões burlescas do humorista argentino Alfredo Casero podem ser consideradas o primeiro passo para entender o documentário Memória do Saqueio, do celebrado e premiado cineasta Fernando Solanas.

O diretor, responsável também pelo tempestuoso roteiro, nos traz uma avalanche de denúncias e acusações, mostrando que os governos que precederam a última crise argentina transformaram o país em uma república do mais esperto. Tal como dizia a jornalista política do país, Silvia Walger, de Alfonsín a Menem e, enfim, a de la Rúa, “a única certeza que a nação tinha era que política e delito são sinônimos”. “A classe no poder desconhece apalavra pudor”, afirma em seu livro Pizza con Champagne, ainda sem tradução para português.

Nesse contexto, Solanas cria uma linha do tempo apontando todo o tipo de irregularidades, governantes corruptos e até a pasmaceira popular que mergulhou a Argentina no mais perverso caos social. Diferentemente do histerismo de Micheal Moore ou da verborragia arisca de Sérgio Bianchi, o diretor argentino é didático, sucinto e estarrecedor. Munido de dados dramáticos e entrevistas bombásticas, não deixa pedra sobre pedra a respeito da política do país.

Não por acaso, foi consagrado este ano na Argentina com o Condor de Prata (prêmio dado pela Associação de Críticos de Cinema), por melhor roteiro e melhor documentário longa-metragem. Mesmo em terras brasileiras o filme não fez feio, levando o prêmio de melhor documentário internacional na 28º Mostra BR de Cinema, no ano passado.

A importância de sua nova produção apenas fica à sombra da importância o conjunto de sua obra, não apenas em seu país, mas também em toda a América Latina. Por isso, Solanas recebeu um Urso de Ouro Honorário no Festival de Berlim de 2004, ano que estreou Memoria do Saqueio; por dar identidade e visibilidade ao cinema político latino.

Sem qualquer dúvida, Solanas é um professor aplicado. Tenta dar uma visão crítica ao espectador, incitando-o a tomar atitudes ou, pelo menos, despertar uma postura um pouco mais engajada de seus compatriotas. Mais do que uma aula de história, o diretor traz uma contundente mostra de cinema politizado, bem elaborado e sem recorrer a sensacionalismos ou exageros, clichês ou lugares comuns. Um filme para se ter na cabeceira da cama.

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