Um ano depois de ser premiado em Gramado 2004, o drama Filhas do Vento, de Joel Zito Araújo, estreou em cinemas em São Paulo e no Rio. O longa, que ganhou oito prêmios no Festival em 2004, entre eles melhor filme (crítica), diretor e atriz (dividido entre Ruth de Souza e Léa Garcia), marca a estréia na ficção do documentarista.
Estrelado por um dos maiores e mais competentes elencos de atores negros dos últimos tempos no cinema nacional, Filhas do Vento foge dos papéis estereotipados que esses atores são obrigados a fazer em cinema em TV. Neste filme, nenhum deles é marginal, escravo ou empregado de patroa branca.
Na verdade, um dos pontos centrais é mostrar uma atriz veterana negra, Cida (Ruth de Souza) que, apesar de conseguir sucesso, só teve esse tipo de papel nas novelas em que trabalhou.
A irmã de Cida, Ju (Léa Garcia), por sua vez, preferiu ficar no interior de Minas, cuidando do pai e depois dos filhos e netos, acompanhando a carreira da irmã de longe. Quando jovens, as duas tiveram uma briga séria envolvendo o pai, Zé das Bicicletas (Milton Gonçalves, também premiado no Festival), e um namorado, o que estimulou Cida a ir embora da cidade.
O roteiro de Di Moretti realiza um feito raro no cinema: centrar-se numa saga familiar protagonizada por mulheres, que acompanha duas gerações de uma família. Quando jovens, as irmãs são interpretadas por Taís Araújo e Thalma de Freitas (ganhadoras do prêmio de atriz coadjuvante no Festival).
A segunda geração da família apresenta Selminha (Maria Ceiça), filha de Cida, que fez uma carreira militar de sucesso, mas agora enfrenta problemas com o namorado casado (Jonas Bloch), que não quer deixar a família.
A filha de Ju, Dorinha (Danielle Ornellas), quer seguir os passos da tia e ser estrela de TV, para decepção da mãe. Para isso, mudou-se para o Rio e raramente visita a família. Essas quatro mulheres vão se reencontrar quando Zé das Bicicletas morre, e será preciso acertar as contas do passado para não comprometer o futuro da família.
Ao contar a trajetória da atriz negra que triunfa apesar dos preconceitos, o diretor remete à trajetória real da própria Ruth, relegada a papéis de coadjuvante no passado, e que são um dos assuntos principais de seu famoso livro, A Negação do Brasil, base de seu documentário homônimo.
Investindo na vertente do melodrama, Filhas do Vento pode ser parecido com uma telenovela à primeira vista, mas um olhar mais detalhado destaca a sofisticação do filme ao tratar do racismo velado que existe no Brasil. Com isso, busca a aceitação dos atores negros em papéis de heroínas e heróis românticos que muitas vezes lhe foram negados, tanto na televisão, quanto no cinema.
