Conforme João Batista diz essa é uma dívida, ‘um filme que deveria ter feito há muito tempo’. Longe de ser panfletário, o cineasta faz um registro emocionado de um homem que representou muito não só para a imprensa brasileira (foi diretor de jornalismo de TV Cultura, editor de cultura da revista Visão, entre outros trabalhos), como também para acabar com a ditadura militar no Brasil.
Morto em 25 de outubro de 1975, após ser violentamente torturado no DOI-CODI (órgão da repressão política do regime militar), a versão oficial dava que Vlado, como era chamado pelos amigos, se suicidou – o que não é verdade, conforme foi provado anos depois.
Embora existam algumas imagens de arquivo ilustrando a época e os acontecimentos, Vlado – 30 Anos Depois encontra a sua força no depoimento de diversas personalidades que foram amigas do jornalista, além de sua viúva Clarice Herzog. São sempre depoimentos emocionados de pessoas que sentiram na pele os horrores de lutar por um país livre da ditadura.
Momentos de tensão e dor vêm à tona com depoimentos de jornalistas como Paulo Markun, Alberto Dines, Mino Carta, Fernando Morias e Sérgio Gomes. Todos se lembram dos horrores da repressão vigente depois do AI-5.
Markun, por exemplo, conta, entre outras coisas, o quanto era difícil não ceder ao saber que sua mulher estava sendo torturada na sala ao lado. Muitos concordam que ver amigos torturados é tão doloroso quanto ter o seu corpo agredido pelos militares.
A morte de Valdo aconteceu num momento de alta tensão na vida política brasileira, quando houve um acirramento da luta interna de duas facções militares. De um lado os generais Geisel e Golbery, que estavam no poder, e prometiam distensão; enquanto de outro os representantes da repressão que eram totalmente contra a idéia da abertura.
Contando desde a infância difícil na Yuguslávia, de onde Herzog, de origens judaicas, teve de fugir com a família, Vlado – 30 Anos Depois culmina no ato ecumênico que reuniu diversos setores da sociedade paulista e cerca de 8 mil pessoas na Catedral da Sé uma semana depois da morte do jornalista.
No dia 31 de outubro de 1975, realizou-se o que foi caracterizado como um ato silencioso contra o regime. O documentário apresenta imagens inéditas do evento que mostram líderes religiosos como D. Paulo Evaristo Arns e o rabino Henry Sobel realizando o ato ecumênico que representava toda a sociedade pedindo paz.
Vlado – 30 Anos Depois é até pobre enquanto cinema – na maior parte do tempo é uma câmera enquadrando os entrevistados. Mas é exatamente o que essas pessoas dizem que fazem o filme ser poderoso. São testemunhas de uma época obscura de nossa história que merece ser lembrada e mostra a aqueles que não a viveram.
João Batista pergunta a meia dúzia de pessoas na Praça da Sé, em São Paulo, nas primeiras cenas do filme, se eles sabem quem foi Vladmir Herzog. A maioria das pessoas não sabem quem ele foi, e um entrevistado chega até a dizer que a ditadura deveria voltar. Vlado – 30 Anos Depois faz um grande serviço ao Brasil ao mostrar quem foi o jornalista e porque jamais deveríamos sequer pensar na volta de um regime militar.
