O chileno Patrício Guzmán foi considerado por muito tempo um cineasta non grato em seu país natal. Preso e torturado pela ditadura, vivência que o levou a se radicar na França, foi também alvo de discriminação por parte da esquerda chilena, que via em suas produções uma imparcialidade inconcebível para alguém que defendia os ideais revolucionários e utópicos do presidente assassinado Salvador Allende.
Com uma extensa filmografia, ele foi responsável pelos documentários mais críticos à sociedade chilena em um período conturbado da história recente do país: o fim do socialismo libertário defendido por Allende e a ascensão da ditadura militar liderada pelo general Augusto Pinochet no começo dos anos 70. Uma época em que, cindido, o Chile entrou em completo caos social.
Esse é o contexto do documentário A Batalha do Chile, a primeira grande obra de Guzmán, com cinco horas de duração, dividida em três partes.
A primeira, A Insurreição da Burguesia (91 min.), é a principal: mostra o sistemático envolvimento da elite para inviabilizar os projetos sociais do governo. Impedido de governar e cumprir suas metas, Allende não consegue frear a crise no país, que transforma ruas e avenidas em praças de guerra.
A trilogia segue com O Golpe de Estado (89 min.) que retrata o ponto crítico do período. A desestabilização econômica nas mãos dos Estados Unidos, a ação de grupos fascistas e das forças armadas culmina no bombardeamento do Palácio de la Moneda pelos militares. A bandeira nacional incendiada sobre o gabinete presidencial é, ao lado de pessoas feridas sendo carregadas por ambulâncias, uma das imagens eternizadas pela lente do cineasta.
Seguindo cronologicamente os acontecimentos, a população - principalmente a mais pobre - começa a criar comitês para enfrentar o racionamento de alimentos e combustível imposto pelo novo governo. O Poder Popular (100 min.), que encerra a trilogia, adentra assim o princípio da ditadura, apontando os caminhos que moldaram o pensamento chileno para enterrar esses acontecimentos em uma criticada amnésia histórica.
Embora nunca tenha entrevistado Salvador Allende, o então jovem cineasta seguiu com sua câmera toda a cúpula de seu governo, tal como filmou diferentes movimentos sociais, a oposição, a atividade sindical, as marchas e a elite empresarial. São essas imagens e entrevistas em preto-e-branco que irrompem na tela com especial didatismo.
Nesse sentido, Guzmán pretendia - e ainda pretende - recuperar parte da memória coletiva chilena. Por isso, tem se dedicado por todos estes anos a lembrar seus compatriotas que os crimes cometidos por toda uma população não podem ser enterrados. Suas últimas produções, todas premiadas internacionalmente, como En Nonbre de Dios (1986), La Memoria Obstinada (1997), El Caso Pinochet (2001), Salvador Allende (2004), começam agora a estrear nos cinemas chilenos, tal como invadiram festivais internacionais de cinema.
Seu trabalho finalmente foi reconhecido em 2004, quando, homenageado publicamente, recebeu a condecoração da Ordem ao Mérito Artístico Cultural Pablo Neruda. O prêmio, dado a pessoas que se destacam por sua contribuição à cultura dos chilenos, mais do que um mérito, é considerado um agradecimento à sua função educativa para as novas gerações.
