O resultado é um interessante painel político e sociológico – e mesmo psicológico – da política brasileira. Claro que não é possível tomar essa amostra como o todo. Mas no universo delimitado pelos cineastas, Vocação do Poder faz uma leitura às vezes perturbadora do processo político brasileiro.
São seis candidatos às vagas de vereador da cidade, todos concorrendo pela primeira vez. Antonio Pedro é um empresário que já teve cargos públicos. Carlo Caiado, estudante de administração, começou na política como assessor de um deputado estadual. André Luiz Filho é filho de uma deputada estadual e de um ex-deputado federal, cujo mandato foi cassado depois que o filme já estava pronto.
Já a pastora Márcia Teixeira busca seus votos entre os membros de seu Projeto Vida Nova, que tem mais de 50 igrejas no Brasil e exterior. MC Geléia é compositor de rap e produtor musical que tentar conquistar seus eleitores na periferia. E, por fim, o advogado e professor universitário Felipe Santa Cruz, que atuou por muitos anos na política estudantil.
Os seis personagens do filme foram selecionados por meio de uma pesquisa on line, na qual os interessados em participar do documentários responderam perguntas sobre orientação política, partidária e condições da campanha. Com cerca de 70 questionários respondidos, os cineastas buscaram selecionar pessoas de diferentes partidos e áreas de atuação na cidade.
As entrevistas e imagens foram gravadas em pouco mais de 40 dias descontínuos, indo do final de abril até o início de outubro de 2004 – quando aconteceram as eleições. “Vocação do Poder” acompanha o trabalho dos candidatos selecionados, como suas táticas de abordagem aos eleitores na rua, seus programas de TV e sua vida social e familiar.
Os documentaristas buscam a maior imparcialidade possível para compor um retrato de quem são e como agem os candidatos. Assim, também mapeiam a condição sócioeconômica do Rio. Os candidatos praticamente nunca se encontram em cena e a platéia tem o privilégio de ver de observar várias facetas do jogo político.
Um exemplo disso é a oposição quase completa que existe nas campanhas de André Luiz e MC Geléia. O primeiro, vindo de uma família que tem tradição na política e verba para campanha, é capaz de fazer uma mega-carreata, encher a cidade de cartazes e outdoors. Enquanto isso, o outro raramente tem chance de ir além do corpo-a-corpo com o eleitor na região onde mora. O resultado disso se mostra claramente nas urnas.
O que se vê na tela é a soma da rotina conhecida de muitos, como o contato com os eleitores, as carreatas, os showmícios, as discussões no comitê eleitoral, e daquilo que poucas vezes o público vê, ou seja, a ansiedade na hora da contagem dos votos, a alegria da vitória ou a decepção da derrota nas urnas.
