19/07/2026
Drama

Fogueira

O ano é 1981. Rachel enviuvou há um ano mas ainda não decidiu o que fará de sua vida. Ela não se entende com a filha mais velha, Esty, que está descobrindo sua sexualidade e virou rebelde. A caçula, Tammy, está se apaixonando por um garoto, que pertence a uma turma meio barra-pesada. A família se divide sobre a decisão da mãe de mudar-se para um dos novos assentamentos judeus nos territórios palestinos ocupados.

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Dirigido por Joseph Cedar, este delicado drama israelense ancora-se nas personagens femininas – a viúva Rachel (Michaela Eshet) e suas filhas, Esty (Maya Maron) e Tammy (Hani Furstenberg ). A descoberta (ou redescoberta) do amor e da sexualidade para as três mulheres conduz a história. Um detalhe simpático é abrir espaço também para o dilema do cinquentão Yossi (Moshe Ivgy), que se confessa virgem e já parece conformado com a solidão, embora se apaixone por Rachel.

Rachel está confusa – por ter enviuvado, nunca ter se apaixonado aos 42 anos, não se entender com as filhas adolescentes, não saber o que quer dos homens que conhece neste momento de sua vida. A escolha positiva na direção do filme é não ter nenhuma pressa de oferecer salvação nem a Rachel, nem às filhas – o que dá um toque de realidade à história que nem mesmo alguns clichezinhos pelo caminho conseguem atrapalhar.

O diretor é particularmente feliz na construção da delicadeza dessa atmosfera, que tem seu contraponto na honestidade com que introduz uma forte crítica ao machismo em Israel –com uma seqüência particularmente forte de abuso sexual para ilustrar esse machismo, que já vinha sendo delineado na relação da viúva com seu ambiente. Afinal, naquela sociedade de 1981, época do filme, uma viúva ainda se sentia obrigada a mentir sobre sua condição até para vender o próprio carro.

O peso político daquele momento também era bastante forte. Em 1981 é justamente quando se inicia em Israel o movimento de criação de colônias judaicas dentro do território palestino (hoje se vive justamente o movimento inverso). A própria viúva - cujo terraço é inteiramente decorado com bandeiras de Israel - quer ir viver num desses assentamentos ultranacionalistas. O fato de que o diretor, um judeu ortodoxo, introduza um viés crítico no retrato desta comunidade levantou a ira dos conservadores de Israel, que boicotaram o filme. Do ponto de vista de estrangeiros – como os brasileiros – o que salta aos olhos é o conservadorismo dessa comunidade, em que o maior valor está na força bruta e no militarismo. Não admira que eles mostrem tão pouca vocação para a intimidade e o amor.

Ao escolher como protagonistas de sua história três mulheres, o diretor já havia feito sua escolha para lançar dardos contra setores retrógrados que tanta influência exercem em Israel. Um estado moderno que, inegavelmente, tem as mulheres mais cultas e emancipadas do Oriente Médio - o que também até acaba sendo outro ponto de choque com seus vizinhos muçulmanos, ainda mais restritivos aos direitos femininos.

Essa má consciência sobre o machismo ainda latente na sociedade israelense aparece em dois momentos nos quais personagens invocam uma espécie de lei do silêncio: o agressor da menina Tammy em relação aos amigos (inclusive o garoto de quem ela gosta); e quando Rachel quer ir à polícia por causa da filha e um amigo, Motke (Assi Dayan), a dissuade. A velha estratégia de varrer a sujeira para debaixo do tapete.

Submetida a uma violência, sobressai a admirável Tammy – interpretada pela bela Hani Furstenberg, que lembra muito uma Liv Ullman adolescente. A autenticidade da jovem atriz para encarná-la é intensa até nos momentos mais simples – como na seqüência em que ela dança rock sozinha em casa e é surpreendida pela irmã e o namorado. Com sua resistência muda ao abuso que sofreu e sua insistência em “ser feliz este ano”, apesar de tudo, ela traduz um retrato sincero e comovente da adolescência. Otimista, também.

Com muita justiça, a jovem Hani venceu em 2004 um dos cinco prêmios concedidos ao filme pela Academia Israelense, o de atriz coadjuvante. Além deste, ganhou os de melhor filme, diretor, roteiro e montagem. Por ter vencido o de melhor filme, automaticamente habilitou-se a representar Israel para concorrer a uma das cinco indicações ao Oscar de filme estrangeiro de 2004.

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