Aluno de Cinema da Escola de San Antonio de los Baños, em Cuba, nos anos 1980, o carioca Vicente Ferraz teve ali seu primeiro contato com um filme famoso mas quase secreto, Soy Cuba (1964), do russo Mikhail Kalatosov. Superprodução bancada pela então URSS e Cuba, para servir como propaganda socialista no auge da Guerra Fria, havia sido exibida pouquíssimas vezes nos dois países e fora deles. O motivo é que o resultado, quatro esquetes ficcionais extremamente poéticos sobre a vida cubana, não havia agradado a nenhuma das partes envolvidas. Assim, o filme foi mandado ao arquivo do ICAIC (Instituto Cubano de Artes e Indústria Cinematográfica). Por sorte, negativos e stills resistiram, bem preservados, a quatro décadas na prateleira.
Apaixonado pelo que viu, Ferraz convenceu-se de que era hora de fazer um documentário que resgatasse a história do filme. Encontrou aliados inesperados nos norte-americanos Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, que haviam passado por uma similar descoberta da obra de Kalatosov, numa retrospectiva do diretor russo nos EUA. A partir daí, Scorsese e Coppola empenharam-se na restauração e relançamento do filme, que voltou a circular pelo mundo, inclusive em DVD, também no Brasil.
Restava agora a Ferraz a tarefa de recontar a trajetória de Soy Cuba, o que ele faz com sobriedade, emoção e riqueza de detalhes neste documentário, premiado nos festivais de Chicago, Guadalajara e Gramado. Para isso, reencontra atores e técnicos sobreviventes, que falam de sua experiência na produção. E, o que é ainda melhor, coloca diversos trechos completos do belíssimo e incompreendido trabalho de Kalatosov.
O diretor russo não havia sido escolhido para liderar aquele projeto por acaso. Era um cineasta importante dentro e fora de seu país, premiado com a Palma de Ouro em Cannes em 1957 (com o filme Quando Voam as Cegonhas). Uma folha de serviços apropriada para alguém que devia produzir não apenas um filme, mas um símbolo da aliança entre Cuba e a potência soviética pouco depois do rompimento de relações diplomáticas dos EUA com a ilha de Fidel. Ou seja, uma obra que retratasse toda a força desta união entre dois povos, duas culturas, mas sob a mesma bandeira socialista.
Kalatosov teve, portanto, carta branca para não economizar recursos. Comandou uma equipe de 200 pessoas, filmando por longos 14 meses em Cuba. Exigiu negativos infravermelhos para filmar – material que era de uso militar exclusivo, para filmagens especiais, como a face oculta da Lua. Naquele momento, a corrida espacial era uma das arenas em que a Guerra Fria se manifestava com mais fúria. Que Kalatosov tenha obtido acesso a esse material indica claramente a carga política da produção.
Outro indicador da alta prioridade de Soy Cuba foi demonstrado quando o cineasta solicitou milhares de soldados para reconstituir seqüências que evocavam a vitória da Revolução Cubana. O irmão de Fidel, Raúl Castro, imediatamente enviou-lhe nada menos de 5.000 soldados da parte oriental da ilha, o que, como lembra um dos técnicos da filmagem, significava deixar desguarnecida aquela parte do país num momento em que estava sob a mira dos mísseis norte-americanos.
Ao alinhar depoimentos da equipe original, como o co-roteirista Enrique Pineda Barnet e o câmera Aleksandr ‘Sacha’ Kaltsastyj, o cineasta brasileiro une as pontas da história, revelando bastidores e fazendo um balanço distanciado da época da realização. Além disso, mostra seqüências impressionantes do belo Soy Cuba, que documentam sua incrível colocação de câmera – como o plano-seqüência do enterro do estudante que abre o documentário de Ferraz. Esta seqüência foi, aliás, uma das que mais impressionaram Scorsese, que chegou a telefonar a Kaltsastyj dizendo-lhe que não podia morrer sem saber ela como fôra feita. O segredo: a câmera foi acoplada por meio de um ímã a um pequeno teleférico na parte superior de alguns prédios de Havana, dando a sensação de que ela está “voando” sobre o cortejo fúnebre.
Com isso, o documentário – primeiro longa do diretor brasileiro - fornece elementos para o resgate do filme que, independentemente de suas intenções políticas, nem por isso deixou de sintetizar uma soma de outras ambições, artísticas, estéticas, culturais, que só a passagem dos anos permitem perceber com mais serenidade.
