Nítido como é, Gente da Sicília não é o tipo de filme que se revela sem esforço aos sentidos. Requer uma absorção lenta, atenciosa de seus múltiplos detalhes, para a devida apreciação do estilo destes diretores para extrair seus diamantes fílmicos, demonstrando paciência, delicadeza e precisão de escultores.
Silvestro retorna à sua aldeia natal na Sicília, depois de 15 anos de ausência. Reencontra a mãe, que não viu por todo esse tempo, e começa uma jornada de volta às suas memórias. Busca uma compreensão do que é e do que foi ele mesmo, sua família, sua terra tão contraditória e sagaz. Na Filmicca.
- Por Neusa Barbosa
- 04/02/2003
- Tempo de leitura 3 minutos
O cinema muito peculiar da dupla de diretores franceses Danièle Huillet (1936-2006) e Jean-Marie Straub encontra em Gente da Sicília (1998) uma de suas mais límpidas expressões. Enxuto, em preto-e-branco, o filme expressa o minimalismo dramatúrgico dos realizadores ao mesmo tempo que reflete sua austeridade e rigor de composição, a economia de gestos e elementos de cena e cenários e a contenção das emoções a limites bem estritos, e não menos expressivos, do discurso, das palavras.
De muitas maneiras, o romance original do autor italiano Elio Vittorini, escrito em 1937 e considerado precursor do neorrealismo, foi o terreno ideal para que Huillet e Straub exercessem seu estilo. O espírito ancestral, arcaico e profundo da Sicília perfuma este filme originalíssimo e despojado, vencedor do Prêmio da Crítica da Mostra Internacional de Cinema de 1999, depois de ter passado na mostra Un Certain de Cannes no mesmo ano. O protagonista é Silvestro (Gianni Buscarino), imigrante siciliano que volta dos EUA, depois de 15 anos, para sua terra natal, em Siracusa, para ter rever a mãe (Angela Nugara). Tanto neste reencontro com a mãe, como com transeuntes, passageiros de um trem e outros trabalhadores, Silvestro manterá diálogos esparsos, construindo uma narrativa altamente reveladora das relações de classe, da natureza primitiva nas paisagens áridas e dos relacionamentos sicilianos.
Desde o primeiro minuto, seu formato e ritmo desafiam os costumes do público. Filmadas em preto-e-branco, as imagens fluem propositalmente lentas, com a cadência da vida cotidiana em tempo real. Os diálogos são recitados sem as empostações tradicionais dos atores, já que está em cena um elenco de amadores, escolhido à risca. A história colhe, afinal, apenas um fiapo do romance de Vittorini para ser contada. E o fato de o livro ter sido proibido pelo fascismo no final dos anos 1930 apenas serve para lembrar, uma vez mais, a crônica insensatez das ditaduras.
O despojamento entra no tecido emocional do filme através desta entonação peculiar dos personagens - aparentemente desprovida da emotividade considerada típica dos italianos - que cria um certo estranhamento, a princípio, mas nada mais é do que o reflexo do distanciamento brechtiano que é um dos cânones destes diretores.
Quando nos acostumamos com este tom, penetramos com mais facilidade na riqueza deste universo camponês, em que a figura da mãe cresce de maneira extraordinária à medida em que aumenta a temperatura de seu confronto com o filho. Quanto mais ela expôe as razões de seu rompimento com o marido, pai de Silvestro, mais emergem as conflituosas relações entre os sexos deste contexto rural e primitivo, o mesmo universo onde habitam as lembranças mais ternas de ambos. Da parte de Silvestro, a memória das travessuras com o trem e as comidas favoritas. Da parte dela, a de uma insuspeitada paixão.
Em seus densos 67 minutos de duração, o filme equilibra-se quase todo no fio dessas conversas aparentemente banais entre a mãe e o filho, mas que descortinam um novo panorama a partir de pequenos detalhes. Fora a revisão da história familiar, igualmente em torno das figuras de seu pai e de seu avô, Silvestro ainda testemunha o pensamento vivo das contradições sicilianas num outro saboroso diálogo com o amolador de facas (Vittorio Vigneri). Não é todo dia que se tem um retrato tão justo da complexidade humana.
