Não por acaso, a obra dialoga com o Luchino Visconti de Rocco e seus Irmãos. E, mesmo que Amelio tenha insistido em afirmar que seu filme retrata um país que não existe mais, continua lá a ferida mal cicatrizada que divide a Itália em norte e sul, duas realidades diversas e irredutíveis uma à outra que a toda hora os movimentos separatistas não deixam esquecer.
Os protagonistas são dois irmãos sicilianos, Giovanni (Enrico Lo Verso, o ator preferido do diretor) e Pietro (o estreante Francesco Giuffrida) que, nos anos 50, deixam para trás a ensolarada terra natal rumo a Turim. Os dois vivem em condições subumanas, apertados em pensões imundas. Os pequeníssimos luxos desta existência são todos para Pietro, o caçula, que o mais velho quer ver formado professor. Analfabeto, Giovanni mata-se de trabalhar não importa em que emprego pesado e mal-pago para realizar seu sonho, projetado no irmão.
Pietro tem outros projetos. Cabula aulas, come em restaurantes, vai atrás de mulheres. O dinheiro traça o caminho de sua corrupção, bem como a do irmão mais velho que prospera por caminhos escusos. De vítima, Giovanni tornou-se algoz de imigrantes como ele.
Aparentemente, a cidade grande mastigou a alma dos dois camponeses, transformando-os em neo-capitalistas desligados de suas raízes. Mas esta aparência sofre uma revés quando acontece um assassinato. Nesse momento em que a família corre risco, fala mais alto a voz do sangue de um irmão que defende o outro acima de qualquer conveniência ou pragmatismo. A Sicília primitiva reencontra sua língua na adversidade.
