Terra Fria pretende ser uma espécie de Norma Rae do século XXI colocando o preconceito sexual como tema central. O roteiro de Michael Seitzman é baseado no livro de Clara Bingham, que aborda o primeiro processo judicial movido por discriminação sexual no trabalho nos EUA. O filme parte do fato para a ficção dramatizando o tema e tomando liberdades. Charlize é Josey Aimes, uma mãe solteira que abandona o segundo marido violento, vai morar com os pais e procura um emprego para se sustentar.
É a amiga Glory (Frances McDormand), que trabalha numa das minas na cidade, que sugere a Josey fazer o mesmo. Por causa de uma lei, as empresas mineradoras são obrigadas a ter uma porcentagem de mulheres no seu quadro de funcionários. Mas não será fácil para ela e as outras se manterem ilesas no trabalho. O grupo de mulheres é obrigado a enfrentar os mais sórdidos preconceitos, que resultam em agressões físicas, verbais e morais. Muitas delas parecem simplesmente acatar as humilhações para não perder o emprego, enquanto Josey decide entrar na justiça para conseguir respeito.
Entre os mineiros está o pai de Josey (Richard Jenkins) que fica numa posição delicada, não querendo tomar o partido da filha contra os amigos, mas também sofrendo com as humilhações impostas a ela. Com esse seu dilema, ele acaba sendo um dos personagens mais interessantes do filme, cujo roteiro se calca em personagens pouco desenvolvidos, assim como a ação a partir da primeira hora de filme.
Há pouco o que se pensar em cima de Terra Fria, que opta por pegar a platéia mais pelo lado emocional do que conquistá-la por um contexto sócio-político. As emoções explodem de forma rasa, acabando facilmente com a eficiência da primeira parte do longa, na qual a tensão é construída. O filme toma a parte como o todo. Josey representa todas aquelas mulheres que tiveram que lutar para provar o seu valor, sua capacidade de realizar o mesmo trabalho que homens, e aquelas que apanharam por negar-se a ceder. Com isso, o roteiro transforma uma batalha árdua em metáfora da redenção do sexo feminino. Até porque todo mundo sabe que vencer no tribunal não significa que tudo vá mudar da noite para o dia. Ciente disso, a vitória de Josey se concretiza com o perdão do pai e do filho.
Há alguns anos atrás, Erin Brokovich fez praticamente a mesma coisa, e fez melhor. Ao menos Steven Soderbergh colocou uma personagem mais ativa e soube dosar espetáculo cinematográfico com questão social. Aqui, o filme de Niki Caro padece dos mesmos males de Encantadora de Baleias, ao perder o foco da batalha entre o plano pessoal e histórico de seus personagens.
Escalar Charlize é uma faca de dois gumes. Afinal, com um corte de cabelo melhor, Josey com sua beleza poderia muito bem ser modelo ou trabalhar em Hollywood. Mas a atriz não ganhou um Oscar porque apenas engordou e ficou feia em Monster. As nuances de sua atuação estavam em buscar o lado humano de um personagem assustador – isso não quer dizer que ela concordasse com os atos da retratada. Aqui, ela novamente vai fundo em busca da humanização de uma heroína. Pena o roteiro e a direção não lhe darem chances para mostrar que um mártir também respira, come e dorme.
