03/07/2026

Violação de Domicílio

A casa da família de Mohammad B. fica entre um assentamento de israelenses e uma aldeia árabe, por isso, está num ponto estratégico. Um batalhão israelense toma o local, mas ele e seus familiares se recusam a abandonar a casa. Os dois grupos são obrigados a coexistir, dividindo o segundo andar para os militares e o térreo para os verdadeiros donos da casa.

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O diretor italiano Saverio Costanzo toma a parte pelo todo ao mostrar um grupo de soldados israelenses ocupando uma casa de uma família palestina e transformando-a numa espécie de QG, no seu drama de estréia Violação de Domicílio. O mais angustiante é que os palestinos não abandonam o local e são obrigados a uma convivência, até certo ponto pacífica. Baseado numa história real, este microcosmo serve como ponto de partida para uma metáfora do conflito entre israelenses e palestinos, abordando a esfera da vida privada (daí o título original “Private”) como um reflexo do momento político.

A família conhecida apenas como B leva uma vida tranqüila, e pacifista. O chefe é o palestino Mohammad (Mohammad Bakri), um diretor de escola, que cria seus filhos dando ênfase ao desenvolvimento intelectual. Ele, sua mulher, Samiah (Areen Omari) e os cinco filhos vivem numa casa de dois andares, num ponto estratégico entre assentamentos israelenses e uma aldeia árabe.

O exército israelense invade a casa depois de um tiroteio e tenta obrigar a família a abandoná-la. Perder a casa significa abrir mão de toda a dignidade, por isso Mohammad se recusa e acaba entrando numa espécie de acordo com os invasores. Os soldados passam a ocupar o segundo andar, enquanto a família pode ficar com o térreo. Os donos da casa podem levar uma vida normal durante o dia, trabalhar, ir para escola, mas à noite, são obrigados a ficar confinados à sala da casa.

Rodado em digital, Violação de Domicílio tem um estilo próximo ao documentário, com câmera na mão e oscilante boa parte do tempo – o que dá uma certa urgência ao longa. O sul da Itália foi usado como cenário, uma vez que se tornou inviável fazê-lo em Israel, como era a idéia original. Para escrever o roteiro, o diretor e seus colaboradores se basearam num caso real, de uma família árabe que conviveu com um grupo de soldados israelenses em sua casa há mais de 10 anos.

Além de sua temática, polêmica por natureza, Violação de Domicílio causou controvérsia ao ser recusado como pré-indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro representando a Itália. Isso porque a Academia só aceita filmes que sejam falados na língua do país original, no caso em italiano, o que não acontece aqui. O filme foi premiado em Locarno, com o Fipresci no Festival de San Francisco, e o David di Donatello de melhor diretor estreante, entre outros prêmios.

Quando no início do filme Mohammad cita Shakespeare (“Ser ou não ser, eis a questão”) ele parece prever que sua família entrará num impasse a respeito de ficar ou não na casa ocupada. O chefe da família se recusa a abandonar o sobrado e, de certa forma, obriga os outros a permanecerem com ele. Sua mulher pensa em sair, pela segurança dos filhos, mas acata a decisão do marido, deixando claro que aceita a contragosto. A filha e o filho mais velho têm ciência do que está acontecendo e buscam soluções para a situação; ela se esconde diversas vezes num armário no andar de cima e consegue ouvir conversas entre os soldados. Já o garoto pensa em armar uma bomba no quintal para matar os israelenses.

Em Violação de Domicílio há duas menções curiosas a Portugal. Um dos filhos aparece usando uma camisa de time de futebol na qual se lê o nome do jogador Figo. Outra, mais intelectual, é o livro Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, numa edição em inglês deixada no quarto da filha por um soldado. Neste romance, o escritor aborda uma misteriosa doença que cega as pessoas e as reduz à essência humana – algo bem parecido com o conflito que toma a região onde o filme se passa.

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