Porém, Irma Vap – O Retorno não é uma mera transposição do palco para as telas. A diretora – que assina o roteiro com Adriana Falcão e Melanie Dimantas – criou toda uma história que justificaria a montagem da peça dentro do filme. Novos personagens foram criados e são, novamente, interpretados por Latorraca e Nanini. O primeiro faz o ator decadente Darci e sua mãe Odete; já o outro é Tony e sua irmã Cleide.
Tony e Darcy fizeram muito sucesso com uma montagem de Irma Vap no Brasil. Mas depois que o primeiro sofreu um acidente que o deixou numa cadeira de rodas, eles nunca mais se encontraram. Tony é o dono dos direitos da peça no país e não os vende por nada. Porém, sua irmã Cleide assina o contrato em seu nome e deixa que dois produtores remontem o espetáculo.
O diretor seria Darcy, que tenta reencontrar o amigo, mas nunca consegue porque Cleide sempre o boicota. Começam os ensaios e dois novos atores (Thiago Fragoso e Fernando Caruso), nos oito papéis que os dois amigos revezavam no cinema. Não é nenhuma surpresa que o clímax do filme seja a estréia da nova montagem do espetáculo. O problema é que até chegar lá muita coisa acontece.
O roteiro do filme possui duas referências básicas. O filme Rebecca – A Mulher Inesquecível é uma forte base na peça Irma Vap, que conta a história de uma Lady recém-casada que tenta superar a influência da primeira mulher de seu marido, que morreu há alguns anos, mas ainda assombra a casa.
Já a relação doentia entre Cleide e Tony tem como mote O Que Terá Acontecido a Baby Jane?. Com direito a irmã vestida com figurino infantil e cantando seu sucesso de infância “Biquíni de Bolinha”, para um jovem que tenta seduzir. A diretora deixa bem claro que está brincando com clichês aqui. Como um dos personagens cita que a vida dele mais parece o filme estrelado por Bete Davis e Joan Crawford não se pode chamar de plágio, mas, sim, homenagem.
Os poucos momentos genuinamente divertidos de Irma Vap – O Retorno vêm da peça original, principalmente em alguns diálogos espertos. Porém, no cinema, o trabalho não funciona tão bem quanto no teatro, no qual tudo depende da relação dos dois atores com seu público. O longa é cheio de referências e metalinguagem e presença excessiva de Latorraca e Nanini.
Irma Vap – O Retorno é uma homenagem ao teatro, à profissão de ator. Embora bem-intencionado nesse sentido, o filme nunca vai além disso, nunca se comunica com o público que não tenha como profissão atuar e parece insistir o tempo todo em dizer que a vida de ator não é tão fácil e glamurosa quanto parece. A cena inicial, na qual diversos atores fazem uma homenagem ao teatro, já diz ao que o filme veio: foi feito para massagear o ego de meia-dúzia – todos curiosamente atores ou ex-atores. Do lado de cá da tela fica a dúvida se o show tem mesmo que continuar.
