08/06/2026
Fábula Drama

O Estado do Cão

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O cineasta belga Peter Brosens, 38 anos, é um apaixonado por latitudes e histórias exóticas. Passou algum tempo no Equador, onde aprendeu espanhol e realizou o curta El Camino del Tiempo. Tempos depois, viajou para a Mongólia, onde sua atenção foi atraída para a diversidade cultural e religiosa de um povo milenar, que tem entre seus heróis o conquistador Gêngis Khan, e para o grande número de cachorros nas ruas, vivos ou mortos. Com a aliança do jornalista local Dorjkhandyn Turmunkh, transformou essa perplexidade num cativante mergulho nesse misto de lenda e realidade que constitui a espinha dorsal da fábula
O Estado do Cão, prêmio da crítica na 22a. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Não é, portanto, um olhar de estrangeiro deslumbrado o que orienta este mosaico cultural. Há um narrador mítico e é nada menos do que um cão, Basaar. Atingido mortalmente por um tiro, Basaar está a ponto de reencarnar num ser humano, como reza uma lenda tradicional mongol. Por causa dessa lenda, aliás,
é que a população local jamais toca os cães que morrem pelas ruas, uma das imagens que chocou o cineasta europeu antes que compreendesse a razão. Interferir nesse processo seria interromper fatalmente o ciclo da vida.

O conflito de Basaar é sua recusa a entregar-se pacificamente a essa transição para outra existência, desiludido que está com os humanos, como o dono que o abandonou nas ruas, depois de tempos felizes que o manteve como animal de estimação, e os demais que o maltrataram na sua tentativa diária de sobreviver por si mesmo. Uma jovem grávida parece deter o fio de uma saída para o dilema do cão, que se preocupa também com a iminente chegada de Rah, dragão mitológico
que pode devorar o sol e instaurar a total desordem das coisas.

Ao compor esta história, os cineastas triunfam na costura entre os diversos níveis da realidade na complexa Mongólia, tanto urbana quanto antropológica, retendo os traços de uma consistente cultura primitiva, o que lhe garante a identidade mesmo diante da perspectiva globalizada. Fiel a esse espírito, o ritmo da narrativa é lento, a linguagem, nem sempre direta e as imagens preferem o apelo cru da realidade a todo embelezamento que signifique pasteurização. Nada seria mais falso para pintar um retrato de um povo tão antigo, que já foi nômade, abrigou os conquistadores hunos, conquistou a Europa, passou pela influência chinesa e soviética e hoje combina instituições políticas ocidentais como o parlamentarismo com a prática do budismo, do animismo e do xamanismo.

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