Agora, concentrando-se na história deles, é possível compreender melhor a dimensão do vício de Agnès e do amor quase incondicional de Pascal. Muitos personagens também são vistos sob outro prisma, como o fugitivo Bruno le Roux (interpretado por Belvaux), que salva a viciada de uma overdose, e mesmo o policial Pascal, que não é tão durão quanto parecia.
No entanto, com a conclusão da trilogia fica mais evidente um problema que está na concepção da obra em si. Os personagens devem transitar entre o drama e a comédia numa mesma cena, com as mesmas emoções e sentimentos – o que é implausível. Quando Pascal dá em cima da amiga de sua mulher Cécile (Ornella Muti) em Um Casal Admirável, é muitas vezes engraçado. Agora, com as novas informações sobre o casamento problemático dele, o fato é visto por um novo prisma, que não comporta as duas leituras. Mas independente desse tipo de falhas, a Trilogia se sustenta como um mural que mostra como tudo depende de um referencial.
O amor neurótico do segundo filme dá lugar a uma paixão mais visceral, que consome Agnès e Pascal. Para sustentar o vício de sua mulher e evitar que ela caia nas mãos de um traficante, o policial é quem adquire a morfina para ela. Porém, um ex-terrorista ameaça cortar o suplemento de morfina, se Pascal não matar le Roux, cuja história foi mostrada em Em Fuga.
Dominique e Melki vão fundo nos dramas de seus personagens, dando um peso emocional que não existiu até então nos outros dois filmes. As cenas entre os dois são de uma simplicidade assustadora e, ao mesmo tempo, de extremo realismo.
Com esse filme, Belvaux cumpre o que se propôs a fazer. Porém, muitas vezes é possível imaginar se não seria melhor apenas um filme com personagens mais bem desenvolvidos e menos acontecimentos.
