A crueldade física dos dois amantes é capaz de empalidecer mesmo o potencial de escândalo de filmes que chocaram platéias do passado, como O Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci, e O Império dos Sentidos (1976), de Nagisa Oshima. Depois do contato inicial, em que a jovem estudante entrega sua virgindade para o namorado maduro, sucedem-se novos encontros em que os dois amantes descobrem o prazer de inflingir dor um ao outro, com fôlego e fúria capazes de surpreender até o Marquês de Sade, se vivo estivesse, e recorrendo a materiais de crescente poder de agressão, de chicotes a canos de plástico. O casal sai destas sessões quase totalmente esgotado e com marcas profundas na pele, que atestam o flagrante namoro com a morte de sua relação.
Em sua declaração de intenções para o catálogo do festival de Veneza, o diretor coreano atesta que pretendeu tecer em sua história - adaptada do livro Tell me a Lie, de Jang Jung Il - uma fantasia sobre duas pessoas engajadas em ir fundo em sua idéia de liberdade, vivendo livres de qualquer controle. Num determinado ponto da história, o casal abandona casa, trabalho e amigos, depois que o irmão da moça, descobrindo o caráter doentio do relacionamento, incendeia a casa do namorado dela. Há uma breve, mas em todo caso curiosa, menção ao Brasil, país onde a moça pretende radicar-se. Mas não há qualquer desdobramento desta aventura brasileira. O centro da história permanece na emoção exacerbada dos dois amantes, cujo ostensivo cardápio de crueldades termina cansando por sua repetição, o que certamente não apela a todos os públicos.
