Bruno entra, então, num processo lento e gradual de loucura. Convence-se de que o único modo de obter um novo emprego é acabar com a concorrência – o que ele faz, literalmente, matando um a um executivos desempregados de perfil semelhante ao seu.
Parece um policial, com um clima quase hitchcockiano, mas trata-se do novo trabalho do premiado cineasta grego radicado na França Constantin Costa-Gavras. E, antes que se imagine que o diretor de clássicos como Z, Desaparecido- Um Grande Mistério e o mais recente Amém mudou completamente de estilo, é bom pensar melhor. O Corte é também um filme político. Se não mudou Costa-Gavras, mudou a política. Diluíram-se as ideologias e predominou o darwinismo que enunciou a lei do mais forte na natureza. Ao menos na natureza dos executivos há muito desempregados, como o protagonista deste filme, transformado num predador que levou ao pé da letra a tática dos tubarões e mata para sobreviver.
Adaptando livro do americano Donald Westlake, Costa-Gavras consegue criar para seu personagem não só um contexto europeu como uma complexidade psicológica que torna o personagem compreensível, apesar de condenável. Muito se deve ao trabalho afinado do ator francês José Garcia – visto no Brasil no filme O Sétimo Dia, de Carlos Saura. Utilizando-se de uma interpretação sempre sob medida, Garcia consegue manter o personagem dentro de um parâmetro humano. Por isso, cria a inquietante sensação no espectador de que qualquer um de nós poderia estar no seu lugar.
Não é o primeiro filme a mostrar até que ponto o desemprego pode levar à loucura. Produções francesas recentes, como A Agenda (2001), de Laurent Cantet, e O Adversário (2002), de Nicole Garcia, exploraram o tema – sendo que no último o protagonista (Daniel Auteuil) também se torna assassino, mas da própria família, uma história que se baseou no caso real de Jean-Claude Romand, um falso médico francês, ocorrido em 2003. Em O Corte, Costa-Gavras dá um passo além, criando uma parábola surreal da sociedade moderna, ao expor o mecanismo em que o sonho de um consumo infinito convive com a escassez do emprego, desencadeando a reação extrema de Bruno Davert.
Por sua complexidade e contundência, este projeto cinematográfico encontrou dificuldades de produção, mesmo na França que é a sede da diversidade do cinema mundial, e apesar do peso dos nomes de Costa-Gavras e do ator José Garcia. O diretor bateu em muitas portas, conseguiu o apoio dos canais a cabo franceses Arte e France 2 mas, finalmente, teve de recorrer pela primeira vez na vida a uma co-produção européia. Financiaram o filme produtores da Espanha e os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne –dupla de diretores e roteiristas que é hoje uma verdadeira grife humanista no cinema mundial, por trás de filmes como Rosetta e A Criança (ambos vencedores da Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1999 e 2005).
