Há algo de alarmante em pensar que os cidadãos dos Estados Unidos estão chegando a tal nível de desumanização que é preciso metamorfoseá-los em outros seres para que eles possam exercer suas funções. Neste filme, Dave Douglas (Tim Allen) é um pai de família que – surpresa! surpresa! – perdeu o contato com os filhos e a mulher. Um advogado workaholic, seu novo caso envolve um professor acusado de incendiar uma mega-corporação.
Porém, esse professor é um defensor dos direitos dos animais e acusa a empresa de usar bichos como cobaias em seu laboratório. A condenação dele representará uma promoção para Douglas e, conseqüentemente, sua completa desumanização, metaforicamente. Mas, claro, os olhos do promotor irão se abrir e ele vai perceber o quanto tem negligenciado seus filhos e trabalhado pelas causas erradas.
A iluminação do personagem vem por meio de um cachorro tibetano que tem mais de 300 anos. Ele foi roubado pela empresa que busca descobrir o segredo da longevidade do animal. No entanto, Douglas acaba sendo mordido e ‘infectado’ com o DNA canino. Com isso, começa um processo em que ele se transforma num cachorro, literalmente. Somente quando está no formato peludo e com rabo é que o personagem se conscientiza de sua função como pai e marido.
Dirigido por Brian Robbins e com roteiro inspirado num filme de 1959 (no qual o filho virava cachorro, e não o pai), Soltando os Cachorros é pura comédia física, na qual a graça – se é que existe alguma – consiste em ver seu protagonista se transformar num cachorro para se redescobrir humano e voltar à forma normal. Allen tenta divertir correndo, pulando, fingindo de morto e agarrando um frisbie.
A trama, por assim dizer, parece ser saída dos sonhos mais doidos de um membro de uma sociedade protetora dos animais. Só faltou concluir dizendo que bicho também é gente. Nesse caso, até é.
