No longa, Ratto e a filha Antonia (produtora executiva do filme) embarcaram para a Europa para fazer uma viagem pela história do artista. Visitando cidades com Rio, São Paulo, Gênova, Milão e Florença, o cenógrafo e diretor revisita pessoas e lugares que o influenciaram e outros que receberam a marca do seu trabalho.
Um artista multimídia, antes mesmo deste termo ser inventado, Ratto trabalhou como diretor, iluminador, cenógrafo e figurinista, deixando sua marca registrada em todas as atividades.
Radicado no Brasil desde 1954, Ratto foi uma figura fundamental no renascimento do teatro italiano do pós-Guerra e do teatro político do Brasil da época da ditadura. Depoimentos de colegas de trabalho como Fernanda Montenegro, Millôr Fernandes, Maria Della Costa e Dario Fo confirmam a importância do profissional e como ele contribuiu para a arte teatral dos dois países.
Porém, são os depoimentos do próprio cenógrafo que constituem o ponto forte do documentário. O roteiro escrito pela diretora e a filha de Ratto é baseado na autobiografia homônima do artista, publicada na década de 90. Na obra, ele narra suas memórias, alternando diversos períodos de sua vida e abordando diversos assuntos, como o serviço militar na Itália fascista, o trabalho com ópera e cinema.
Ratto veio ao Brasil convidado por pela atriz Maria Della Costa para fazer os cenários e dirigir uma adaptação da peça “O Canto da Cotovia”, de Jean Anouih. Acabou gostando tanto do país que não voltou para a Itália. Ao lado de Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Sérgio Brito e Ítalo Rossi formou um importante grupo chamado Teatro dos Sete. Juntos fizeram montagens que entraram para a história, como O Mambembe, de Artur Azevedo e “A Moratória”, de Jorge Andrade.
Ao longo de sua carreira, o cenógrafo e diretor assinou montagens importantíssimas, como a primeira de Gota D’Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, estrelada por Bibi Ferreira. Em 2003, Ratto recebeu o prêmio Shell pela sua contribuição ao teatro brasileiro. Entre seus últimos trabalhos está o cenário da peça Novas Diretrizes em Tempos de Paz.
Para compor a trajetória de Ratto e, conseqüentemente, um panorama do teatro no Brasil no século passado, a diretora mistura momentos documentais com imagens poéticas, colocando assim numa mesma seqüência diferentes texturas, linguagens, além de cenas ficcionais.
O mais interessante é que a documentarista consegue ir além de fazer um filme exclusivamente sobre o teatro. O que impulsiona as imagens e depoimentos de A Mochila do Mascate é a arte e a relação que um artista tem com o seu mundo. Assim, o documentário consegue se comunicar mesmo com aqueles que conhecem pouco sobre a história do teatro brasileiro.
