19/07/2026
Documentário

O Homem Urso

Sem muitas alternativas na vida, o ator frustrado Timothy Treadwell por treze invernos se isolou no Alasca para estudar e proteger os ursos selvagens da região. Ao longo desse período, ele fez diversas imagens e várias são usadas nesse documentário. Mas acabou sendo devorado por um dos ursos que achava proteger.

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Em se tratando do documentário O Homem Urso, do alemão Werner Herzog, é difícil não cair na armadilha de julgar o filme pelo seu personagem. É bom, desde o começo, distinguir um e outro. O centro do filme é o pseudo-ecologista Timothy Treadwell, que ao longo de treze anos foi abandonando cada vez mais a humanidade para conviver e cuidar dos ursos de uma região selvagem do Alasca. O sujeito chega a ser patético. O filme chega a ser genial.

Ator frustrado, Treadwell resolveu por contra própria e sem nenhum preparo estudar os ursos do Alasca. Por treze anos, ele se instalou na região durante o inverno, às vezes acompanhado, e sempre com uma câmera com a qual registrou aquilo que chamava de pesquisa. Esses animais são considerados alguns dos mais perigosos do mundo, tanto que Treadwell descobriu isso na pele. Ele acabou sendo devorado por um de seus "amigos".

Experiente e esperto, Herzog sabe que tem um personagem poderoso em suas mãos para abordar no filme. O que mais se vê são imagens feitas por Treadwell e, ao longo desses treze anos e de uma hora e meia de filme, o que se vê na tela é um ser humano perdendo contato com a realidade, com o mundo, e se fechando dentro de seu casulo interno revestido de narcisismo e ego. No entanto, o documentarista não julga nada. As imagens falam por si mesmas.

Se nos primeiros minutos, quando o destino trágico de Treadwell é revelado, as pessoas sentem pena dele, ao final do documentário é possível que essa reação tenha se transformado. Com suas imagens, Treadwell se mostra melhor cineasta do que pesquisador ou ecologista. Porém, o seu ego, maior do que os ursos com quem convivia, faz com que qualquer pessoa perceba que ele era um megalomaníaco e que seu final era óbvio. Menos para ele que, por exemplo, achava que os ursos precisavam de proteção.

Se a Disney tem alienado as platéias há anos com animais fofinhos e dóceis, Herzog e Treadwell mostram que as leis da natureza são outras. No entanto, o próprio ‘pesquisador’ parecia estar alienado por uma visão disneificada da natureza, esquecendo que existe a cadeia alimentar, por exemplo. Por mais que Treadwell se julgasse amigo dos ursos e achasse que estava ganhando a confiança deles, percebe-se um certo brilho no olhar de alguns animais que gostariam, na verdade, de devorar o sujeito – e não se tornar parceiros dele.

Se as cenas gravadas por Treadwell mostram a luta do homem contra a natureza, a montagem de O Homem Urso aborda a luta do homem contra sua própria natureza. Treadwell parecia viver num mundo próprio. Chegam a ser hilárias algumas cenas que registrou com sua câmera, e das quais foi protagonista, mostrando mais comprometimento com seu ego do que qualquer participante de reality show. Quando encontra uma abelha presa a uma flor, chora a sua morte desesperadamente – mas, segundos depois, conclui que ela esteja apenas dormindo. Entram também para a série ‘não tenho limites’ a cena em que Treadwell praticamente acaricia as fezes de uma ursa ou quando chora a morte de uma pequena raposa.

Herzog, porém, ainda tenta se manter num limite ético. Ele não mostra, por exemplo, a gravação do som de quando Treadwell e a namorada foram devorados pelo urso. A fita pertence a uma ex-namorada dele, e ela mesma, até então, nunca havia ouvido a gravação. O cineasta ouve os sons e, visivelmente emocionado, a aconselha a destruir a fita para não cair na tentação de ouvi-la, pois, segundo ele e o legista que analisou os dois corpos, os sons são horripilantes.

O longa ganhou diversos prêmios de melhor documentário, como o da Associação de Críticos de Chicago, Flórida, Nova York e Toronto. Herzog também foi escolhido como melhor diretor de documentários de 2005 pelo sindicato dos cineastas dos Estados Unidos.

O Homem Urso não ilumina quem foi Timothy Treadwell – nem é esse o objetivo do filme. O que o diretor faz é uma investigação sobre o comportamento humano. O que torna o documentário ainda mais poderoso é que Herzog pode mostrar o pesquisador em sua essência, sem estar atuando ou fingindo. E temos o registro de algo assustador, resultando num filme impressionante.

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