Como naquele filme, a atriz interpreta uma velha senhora que não se rende aos estereótipos da terceira idade. Desta vez, ela é Elsa, uma viúva que enlouquece o filho mais velho por gastar alegremente seu dinheiro, em geral, ajudando o filho caçula, Alejo (Gonzalo Urtizberéa), que está tentando decolar numa carreira de pintor. Elsa simpatiza com o sonho como tempero da vida e não se abala diante de nada: nem doença, nem preconceitos, nema suposta conveniência dos comportamentos convencionais.
Em pouco tempo, ela se torna a verdadeira salvação de um outro viúvo, Alfredo (Manuel Alexandre), que se muda para o apartamento em frente ao seu. Deprimido com a morte recente da mulher, ele passa seus dias sem querer sair de casa, na única companhia de seu cachorro. Espiando o vizinho pela janela, Elsa rapidamente inventa um plano de conquista. Cerca o reservado Fred de tal maneira, com convites para o café e atitudes inesperadas, que termina por convertê-lo à sua causa: uma invencível paixão por viver o momento.
Elsa é, de muitas maneiras, uma personagem irresistível, encarnada com a habitual energia por China Zorrilla. Há momentos, porém, em que esta que é a grande força do filme tira um pouco de seu próprio ritmo. Não sobra muito a fazer para o resto do elenco, exceto Manuel Alexandre. E mesmo atores competentes, como Federico Luppi, aqui não têm muito a fazer. A excepcional atriz espanhola Blanca Portillo, que em breve será vista no novo filme de Pedro Almodóvar, Volver, aqui praticamente desaparece num papel unilateral demais, como Cuca, a rabugenta filha de Alfredo.
O filme do diretor argentino Marcos Carnevale, um experiente roteirista, inclusive de TV, aspira a ser popular e consegue, ainda que aqui e ali sucumba às próprias convenções. Ainda assim, Carnevale cria uma história bastante equilibrada entre o humor e a fantasia, que decola a partir do sonho de Elsa de repetir em Roma, na Fontana de Trevi, a clássica cena entre Anita Ekberg e Marcello Mastroianni do filme A Doce Vida, de Federico Fellini.
Este é um cinema que procura o grande público – o que não é crime nenhum – mas sua fórmula respira bem mais do que a camisa-de-força noveleira que contamina tantos dos grandes sucessos do cinema brasileiro.
