18/07/2026
Drama

Bubble

Numa pequena cidade no interior dos EUA, um assassinato vai mudar a rotina da vida dos moradores – muitos deles trabalhadores de uma fábrica de bonecas. Bubble faz parte de um projeto experimental de Steven Soderbergh (12 Homens e Outro Segredo, Traffic), que lançou, nos EUA, simultaneamente o filme em cinemas, DVD e tv a cabo. Para a crítica Manhola Dargis, do New York Times este é um filme admirável, que parece ‘ser feito sob medida para incomodar a platéia’.

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Que o norte-americano Steven Soderbergh (Traffic, Doze Homens e Outro Segredo) sempre foi um diretor aberto a novas experimentações não é nenhuma novidade. Transitando entre o cinemão com resultados bons (Erin Brokovich – Uma Mulher de Talento) e outros nem tanto (Onze Homens e um Segredo, e sua seqüência) e o mundo indie, também com resultados díspares (os ótimos sexo, mentiras e videotape e Traffic, e o péssimo Full Frontal), ele parece ser o cineasta norte-americano da atualidade mais interessado nas novas tecnologias e suas possibilidades. Seu novo trabalho, Bubble, foi rodado inteiramente em digital, e, nos EUA, lançado simultaneamente em cinema, DVD e tv a cabo – questionando assim a janela que existe entre esses lançamentos.

Com isso, Soderbergh esperava sacudir o sistema de distribuição norte-americano, principalmente para filmes pequenos. Mas isso não importa muito para o espectador. O que interessa é que o diretor produz um filme eminentemente experimental, trabalhando com suporte digital, atores não-profissionais, muita improvisação. Tudo isso acontece num crescendo, numa atmosfera de estranheza na qual uma bolha parece estar para explodir a qualquer momento, dando vazão a uma enxurrada de sentimentos e verdades que ficam entaladas na garganta dos personagens.

O filme é curto (menos de uma hora e meia) e, durante boa parte, é um estudo de personagens, cujas vidas parecem não ter direção ou sentido. Eles estão presos a uma pequena cidade do interior dos EUA, trabalhando numa fábrica semi-artesanal de bonecas. Martha (Debbie Doebereiner) divide seu tempo entre cuidar do pai idoso e o trabalho. Seu amigo mais próximo é Kyle (Dustin James Ashley), a quem dá carona todos os dias. Existe uma certa harmonia entre a dupla, mas apenas isso. Quem trará tensão a essa amizade – e ao filme – é Rose (Misty Dawn Wilkins), nova funcionária da fábrica, mãe solteira, que aos poucos mostra que as aparências enganam.

Quando um crime acontece e abala a vida do trio, Soderbergh transforma Bubble num whodunnit – uma história cuja razão de ser é descobrir que cometeu o assassinato. Ou quase. Vindo da mente do diretor, não se pode esperar um filme que siga a cartilha. Seu roteiro parece seguir os mandamentos do gênero, mas sua câmera mostra muito mais. Não há grandes revelações sobre os personagens, mas sim confirmações sobre suas existências vazias, tão apáticas quanto a cidade onde moram. O vazio econômico do local e a falta de perspectivas refletem o vazio existencial dos personagens, criando um círculo vicioso. Eles são apáticos porque não têm perspectivas ou não têm perspectivas porque a sua apatia os impede de procurá-las?

Como é de costume em seus filmes, Soderbergh assina a fotografia e montagem com pseudônimos. Ciente das possibilidades e limitações de seu suporte digital, o cineasta não busca extravagâncias visuais e compõe as imagens com enquadramentos precisos e poucos movimentos – traduzindo assim, também, o marasmo da vida local.

Com o experimentalismo calculado de Bubble, o diretor volta às suas origens e mostra que baixo orçamento pode ser sinônimo de alta criatividade. Longe da extravagância financeira ou dos astros lindos e ricos de seus filmes de assalto, o diretor busca um intimismo com seus personagens, suas histórias. O resultado é inquietante e mostra uma faceta dos Estados Unidos longe dos grandes centros urbanos, poucas vezes explorada com tanta honestidade no cinema.

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