O que Agresti também tem em seu favor é uma inspirada dupla central formada por Sandra Bullock e Keanu Reeves, que já provaram ter química em Velocidade Máxima (94). Aqui, potencializam essa afinidade num filme exclusivamente romântico. Embora tenham poucas cenas juntos, existe uma grande cumplicidade entre os dois. Ela é uma médica solitária que terminou um namoro há pouco e leva uma vida solitária. Ele, um arquiteto solteirão que não pensa em se envolver com ninguém. O que os une são cartas, o que os separa é o tempo. Em comum, apenas o endereço.
A caixa de correio dessa casa tem a estranha capacidade de permitir que a correspondência viaje no tempo. O presente para Kate (Sandra) é o ano de 2006; para Alex (Reeves) é 2004. E os dois conseguem se corresponder. O que permite isso é o de menos aqui. O roteiro de David Auburn (o autor da peça A Prova, que lhe rendeu um Pulitzer) – baseado no filme coreano Il Mare - está mais preocupado com as relações humanas dos personagens do que com a discussão física do espaço e tempo, ou explicações sobre o fenômeno.
Assim, os dois personagens querem a mesma coisa, mas em tempos distintos. Nada muito diferente de várias relações que se vêem na vida real, em que homem e mulher querem o mesmo, mas não na mesma hora. Kate e Alex começam a pensar em formas de se encontrarem, no presente ou no futuro. Para ela, o encontro pode ser no dia seguinte, para ele é daqui a dois anos e um dia. Aos poucos, o casal busca uma forma de entrar em sincronia para fazer que a relação funcione fisicamente, além das cartas.
Não por acaso, que o livro preferido de Kate (e cujo exemplar tem um papel fundamental ao longo do filme) é Persuasão, de Jane Austen. No romance, a escritora inglesa fala de duas pessoas apaixonadas que não podem viver o seu amor por diversas razões. Anos depois, quando se reencontram, o momentum já não existe mais. Eles não têm o que dizer, são dois estranhos. A discussão em torno disso é se o tempo pode unir ou separar as pessoas, como com Kate e Alex.
Agresti faz uso da sua experiência com um cinema que privilegia personagens e relações humanas a tramas elaboradas e distantes. Aqui, somos inseridos na vida diária de cada um dos protagonistas. Assim como o amor, que vai acontecendo aos poucos para eles. A direção sóbria e charmosa do argentino privilegia uma sobriedade, tanto no estilo de cores, como na condução dos atores e planos.
A Casa do Lago desafia seu público a se render à premissa praticamente impossível. Questionamentos demais acabam com toda a trama. Aqui, o filme cumpre o papel de existir dentro do seu universo. Pouco importa se a história é inverossímil (eles nunca pensaram em usar e-mail para ver o que acontece? Para que falar de amor se ela pode contar quais os próximos números premiados da loteria? etc, etc, etc), o que importa é que essa quebra na lógica resulta num filme excelente.
