Não poderia haver maior contraste entre as ruas tomadas por barricadas, faixas e eventualmente explosões de bombas de efeito moral, e o ambiente impessoal e antisséptico da empresa. Dentro de seus longos corredores refrigerados, numa sala high tech, sete executivos são colocados diante de computadores. Através deles, virão sucessivamente as mensagens para conduzir o teste, que é orientado pela última palavra neste campo, o método Grönholm.
Não demora a que os candidatos revelem sua personalidade. O seguro Julio (Carmelo Gómez), a veterana Ana (Adriana Ozores), o cafajeste Enrique (Ernesto Alterio), o falador Ricardo (Pablo Echarri), o tímido Fernando (Eduard Fernández), o galante Carlos (Eduardo Noriega) e a glacial Nieves (Najwa Nimri, de Os Amantes do Círculo Polar). Todos são expostos a instruções aparentemente absurdas ou polêmicas, sempre ficando bem claro que estão sendo atentamente observados. Como ratos num laboratório. Se o computador se apaga, o candidato foi excluído.
Baseado numa peça teatral, o hábil diretor argentino Marcelo Piñeyro (de Plata Quemada) cria uma ágil reflexão sobre a modernidade e a ética – e não só nas relações de trabalho. Dentro de um ambiente mínimo e claustrofóbico, extrai alta tensão dos diálogos afiados e do desempenho de seu afinado grupo de atores, escolhidos entre a Argentina e a Espanha, co-produtores deste projeto.
O diretor monta competentemente uma reflexão política sobre a época atual, jogando com os dados de uma situação muito comum na vida da maioria das pessoas, a disputa por um (cada vez mais difícil) emprego. O melhor no tom escolhido por Piñeyro é não julgar, maniqueisticamente, ninguém, não elegendo mocinhos nem bandidos. O que não quer dizer que não permita também uma leitura moral, já que fornece sólidos elementos para pensar até que ponto uma competição com estas características pode tornar as pessoas sórdidas, já que, pelo desespero ou o desejo do sucesso a qualquer preço, são levadas a perder todo e qualquer limite.
Nessa crítica a alguns dos mecanismos da modernidade, não é questão de menor importância a obediência cega, dentro de tantas empresas, a métodos marqueteiros, a que se atribuem características quase mágicas para selecionar seres humanos. Pensando nisto, os manifestantes antiglobalização que gritam do lado de fora têm uma inquietante e salutar razão de existir.
