Nascida numa família simples, no interior do Mato Grosso, Helena começou a desafiar a autoridade masculina já na infância, aos 9 anos, quando teimava em tocar viola mesmo que a façanha fosse punida com surras e broncas severas. Naquele tempo, viola era coisa de homem. E foi assim, autodidata e rebelde, que ela enfrentou a vida. Casou-se três vezes, separou-se por conta de não aturar maridos mandões ou violentos. Teve 11 filhos, mas só criou dois deles. E não encarou um palco para sua arte precisa na viola até completar 67 anos. Até ali, seu talento foi testemunhado apenas nos espaços pouco convencionais das comitivas de boiadeiros e dos prostíbulos, em noitadas regadas a muita cachaça e não raro movimentadas por alguns tiros. Alguns deles dados também pela miúda mas valente dona Helena, como ela mesma contava em seus impagáveis shows, onde ela dedilhava sua arte ligeira e narrava seus “causos”. Incrível que uma artista tão dotada fosse analfabeta.
Foi por causa de um sobrinho que o Brasil e o mundo descobriram dona Helena. Produtor de seu primeiro disco, em 1994, ele enviou uma fita cassete com as interpretações da tia para a prestigiada revista americana Guitar Player. Os gringos renderam-se ao talento da veterana violeira e a incluíram na lista dos 100 melhores guitarristas do mundo, ao lado de feras como Eric Clapton e Keith Richards.
Este reconhecimento internacional elevou a carreira de dona Helena a um outro patamar. Na idade em que a maioria das pessoas se aposenta, ela enfileirava um show atrás do outro sempre que sua saúde permitia. Gravou quatro discos: "Helena Meirelles" (1994), "Flor de Guavira" (1996), "Raiz Pantaneira" (1997) e "De Volta ao Pantanal" (2003). Este documentário reconstitui de maneira sóbria e eficiente a trajetória ímpar desta mulher, num trabalho em que a melhor parte está mesmo nas impagáveis participações da artista.
