A Dália Negra do título é Elizabeth Short, uma starlet que confiava em seu belo corpo para lhe abrir portas em Hollywood. O mesmo corpo que sucumbiu em 15 de janeiro de 1947 – dia em que foi encontrada esquartejada num terreno baldio nos arredores de Los Angeles. Pouco se sabe sobre quem foi em vida. Menos ainda sobre sua morte. Essa figura real, que por anos povoou o imaginário da cidade, perseguiu o escritor James Ellroy (o mesmo autor de Los Angeles – Cidade Proibida, adaptado para o cinema em 97). Ele encontra no crime paralelos com outro mais próximo: a morte de sua mãe. O resultado é um livro de ficção parece ter sido escrito por uma pessoa possuída. Sua prosa, como sempre, é rebuscada, cheia de meandros, que precisam de uma boa dose de criatividade e coragem para traduzi-la em imagens.
Em Los Angeles, Curtis Hanson e seu co-roteirista Brian Helgland encontraram o caminho certo para adaptarem Ellroy. Não tiveram medo de eliminar personagens, tramas, e traduzir em imagens o horror descrito pelo autor. De Palma e seu roteirista Josh Friedman não têm, no entanto, a mesma sensibilidade. A reverência ao texto original faz com que alguns trechos pareçam ter saído direto das páginas do romance para as telas – principalmente a parte que cabe ao narrador, o detetive Bleichert, interpretado por Josh Hartnett.
Dália Negra cria uma dupla ficcional de policiais investigando a morte de Elizabeth. Porém, esses dois homens estão ligados por várias situações, além do crime. Dois boxeadores que se enfrentam nos ringues e são parceiros na polícia, eles acabam dividindo a mesma mulher, Kay Lake (Scarlett Johansson), mulher do detetive, Blanchard (Aaron Eckhart), a cada dia mais obcecado pelo crime.
Em suas investigações, Bleichert acaba encontrando Madeleine Linscott (Hilary Swank). Jovem rica, mimada e fútil, ela pode (ou não) ter tido um caso com Elizabeth, o que a inclui na lista de suspeitos. O que sem dúvida une as duas moças é a semelhança física, que acaba levando o detetive a perder a sanidade.
Hartnett não parece ser a escolha ideal para o papel (nem Mark Wahlberg, que era a escolha original). Falta-lhe um pouco da gravidade que os detetives de noir pedem. Aquela mesma fúria contida (não o tempo todo) que Russell Crowe demonstrou em Los Angeles.... Se Scarlett está discreta no papel da jovem dividida entre dois amores, é Hilary quem convence num papel diferente da jovem sofredora que lhe rendeu dois prêmios da Academia. Aqui, ela é a autêntica femme fatale, que não tem medidas para saciar o seu desejo – seja pelo sexo ou pelo submundo.
De Palma usa todos os elementos típicos do noir para criar uma atmosfera claustrofóbica e pesada – cortesia de uma bela fotografia em tons de marrom e muita fumaça de cigarro. Como sempre foi mais preocupado com a técnica, o cineasta consegue trabalhar o filme com mais facilidade no plano visual do que no narrativo (herança da transposição confusa da obra de Ellroy). Há algumas seqüências memoráveis no filme. Como na cena em que o corpo da Dália Negra é encontrado. Sem nenhum corte, o diretor desvia a narrativa para outro local e outra ação, com um giro de câmera. Ele também não deixa de lado a influência de Hitchcock. Nessa mesma cena, a fachada de um prédio remete à abertura de Psicose. Alguns pássaros também fazem alusão a outro filme do mestre do suspense.
No entanto, no conjunto Dália Negra carece do cinismo e sagacidade de Los Angeles e da literatura de Ellroy, no geral. Muitas vezes afogado numa nostalgia, dá a sensação de que não vai para lugar nenhum, e de que tudo não passa de uma desculpa para a beleza plástica das imagens. Em outros momentos há, porém, sinais de um grande filme, que nunca se concretiza.
