Felizmente, o desafio (ou preconceito) foi superado e este drama competente pode ser avaliado por quem de direito, os espectadores de cinema. Apenas dois atores estão em cena: a ótima Dira Paes, que a televisão insiste em desperdiçar em papéis abaixo do seu talento, e Fernando Eiras, ator veterano de teatro e cinema que o grande público só está descobrindo melhor agora que ele freqüenta novelas.
Os dois interpretam um casal sem nome. A ação acontece toda numa única noite, num quarto de hotel barato, dentro de cujos limites não há regras. Assim, este homem e esta mulher se envolvem em vários jogos de palavras, batalhas verbais e sexuais, alternando momentos de fúria, exasperação, desejo, tristeza, raiva e repulsa. A maneira criativa como o diretor usou este cenário limitado contou com a total cumplicidade desta extraordinária dupla de intérpretes, que tiram o melhor do texto teatral original, a peça A Dama da Lapa, de autoria do dramaturgo Marcelo Pedreira, que divide com Accioli a autoria do roteiro.
Para gostar do filme, é preciso se envolver neste mar de palavras e sentimentos que o filme derrama em alta voltagem, com uma concisão quase cirúrgica e que abre as portas à discussão do sentido do amor. Trata-se, por certo, de uma abordagem adulta, descontaminada de um certo tipo de romantismo superficial que costuma embalar filmes do gênero.
O título, talvez, é que poderia ser diferente, embora faça bastante sentido dentro da trama. Tomara que o público seja inteligente e não se deixe afugentar por este detalhe insignificante.
