O personagem central é Bruno Bonomo (Silvio Orlando), um decadente produtor de filmes B, cuja vida está a cada dia mais arruinada. Sem um sucesso há anos, seu casamento com ex-estrela de suas antigas produções também está em estado terminal. Uma nova chance surge quando chega a suas mãos o roteiro de um filme chamado O Crocodilo, tendo como protagonista um primeiro-ministro pouco idôneo, à la Silvio Berlusconi. O retrato cruel que o filme faz da situação política da Itália e o pouco respeito com o verdadeiro político acabam assustando os investidores e o elenco.
O Crocodilo, que competiu no Festival de Cannes, é o primeiro filme a atacar o primeiro-ministro italiano diretamente. Moretti não tem medo de trazer à tona todas as acusações que rondaram a administração de Berlusconi, como suborno a juízes e políticos, envolvimentos com a máfia e rebaixamento do nível da programação da TV italiana.
O desenvolvimento do roteiro usa uma metalinguagem misturando elementos da vida pessoal de Bonomo, da vida pública italiana e a arte de fazer cinema. A primeira cena é uma síntese de tudo, quando o produtor praticamente esquecido recebe um prêmio. Antes da cerimônia é exibida sua obra mais famosa, Cataratas, em que sua ex-mulher faz uma marxista-leninista nesse filme de ação. É uma seqüência engraçada, que faz rir – mas um riso desconfortável. Assim como todo o filme de Moretti, que ao expor a decadência da política de seu país causa o riso amarelado de quem identifica situações parecidas em outros países fora da Itália.
Em papéis secundários estão diversos cineastas italianos, como Paolo Sorrentino e Paolo Virzì. Já o próprio Berlusconi aparece em cenas de arquivo – que, em alguns momentos são impagáveis. No entanto, o diretor guarda para si mesmo uma pequena participação, numa seqüência de profunda ressonância política que chega a assustar, tamanha sua grandiosidade.
Com seu filme Moretti consegue transitar entre a comédia e a crítica à política de seu país (e de boa parte do mundo ocidental, como conseqüência), na figura de Berlusconi. Ao mesmo tempo, O Crocodilo faz um retrato melancólico do cinema, que parece cada vez menos politizado e mais alienado – um possível reflexo do mundo contemporâneo.
