20/07/2026
Drama Comédia

O Crocodilo

Bruno Bonomo (Silvio Orlando) foi um festejado diretor de filmes B. Hoje, porém, não consegue emplacar um projeto. Até que chega às suas mãos uma sátira política sobre um primeiro-ministro desonesto. No entanto, as semelhanças da ficção com o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi podem fazer que os investidores desistam do projeto. O longa foi exibido em competição no Festival de Cannes, em 2006.

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A 30a. Mostra de Cinema de São Paulo trouxe uma rara chance de assistir a filmes do cinema político italiano, produzido nos anos 60 e 70 – o chamado cinema de empenho social. No entanto, um filme da seção Perspectiva Internacional do festival mantém um claro diálogo com os clássicos de diretores como Elio Petri, Marco Bellocchio e Bernardo Bertolucci, que fizeram parte da mostra paralela. Trata-se de O Crocodilo, do italiano Nanni Moretti (O Quarto do Filho) que nesse longa faz uma sátira política ácida à política no mundo contemporâneo e ao cinema, como manifestação ideológica. Aqui, o cineasta questiona se é possível fazer aquele tipo de cinema atualmente e se mostra muito pessimista.

O personagem central é Bruno Bonomo (Silvio Orlando), um decadente produtor de filmes B, cuja vida está a cada dia mais arruinada. Sem um sucesso há anos, seu casamento com ex-estrela de suas antigas produções também está em estado terminal. Uma nova chance surge quando chega a suas mãos o roteiro de um filme chamado O Crocodilo, tendo como protagonista um primeiro-ministro pouco idôneo, à la Silvio Berlusconi. O retrato cruel que o filme faz da situação política da Itália e o pouco respeito com o verdadeiro político acabam assustando os investidores e o elenco.

O Crocodilo, que competiu no Festival de Cannes, é o primeiro filme a atacar o primeiro-ministro italiano diretamente. Moretti não tem medo de trazer à tona todas as acusações que rondaram a administração de Berlusconi, como suborno a juízes e políticos, envolvimentos com a máfia e rebaixamento do nível da programação da TV italiana.

O desenvolvimento do roteiro usa uma metalinguagem misturando elementos da vida pessoal de Bonomo, da vida pública italiana e a arte de fazer cinema. A primeira cena é uma síntese de tudo, quando o produtor praticamente esquecido recebe um prêmio. Antes da cerimônia é exibida sua obra mais famosa, Cataratas, em que sua ex-mulher faz uma marxista-leninista nesse filme de ação. É uma seqüência engraçada, que faz rir – mas um riso desconfortável. Assim como todo o filme de Moretti, que ao expor a decadência da política de seu país causa o riso amarelado de quem identifica situações parecidas em outros países fora da Itália.

Em papéis secundários estão diversos cineastas italianos, como Paolo Sorrentino e Paolo Virzì. Já o próprio Berlusconi aparece em cenas de arquivo – que, em alguns momentos são impagáveis. No entanto, o diretor guarda para si mesmo uma pequena participação, numa seqüência de profunda ressonância política que chega a assustar, tamanha sua grandiosidade.

Com seu filme Moretti consegue transitar entre a comédia e a crítica à política de seu país (e de boa parte do mundo ocidental, como conseqüência), na figura de Berlusconi. Ao mesmo tempo, O Crocodilo faz um retrato melancólico do cinema, que parece cada vez menos politizado e mais alienado – um possível reflexo do mundo contemporâneo.

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