Time investe fundo numa história de amor paranóico em que a beleza – ou pelo menos a aparência - tem um papel central. A personagem principal é uma jovem que tem ciúme excessivo do namorado, a ponto de dizer que quer ‘furar os olhos das garotas só de elas olharem’ para ele. Ela acredita que um dia o namorado vai se cansar de sua aparência e procurar outra mulher.
Antes que ele se canse do rosto dela e procure outra, ela mesma trata de se tornar outra pessoa, fazendo uma cirurgia plástica que muda completamente a sua fisionomia. Agora, com outro nome, vai atrás do mesmo rapaz e começa a seduzi-lo - sem mudar de personalidade, ou seja, com o mesmo ciúme excessivo. E Kim Ki-duk não mede esforços para mostrar que essa paranóia não pode acabar bem - ela chega a sentir ciúmes da versão antiga de si mesma.
O roteiro, assinado pelo próprio diretor, é confuso com suas idas, vindas e repetições de fatos. A personagem feminina muda de nome – mas como é a mudança é apenas uma letra, pode passar despercebida. Diversas questões levantadas (a importância da aparência, a valorização da beleza ao invés dos sentimentos, a passagem do tempo) nunca são levadas a sério e acabam deixadas de lado, inconclusas.
O que mais atrapalha em Time são os exageros narrativos e estéticos, e soluções pouco ou nada realistas. Não que esse diretor prime por realismo em seus filmes anteriores– sempre carregados de simbologias –, mas esta é uma história que pede um certo elo com o mundo real para que se chegue a algum lugar, para que seus exageros sejam interpretados como uma crítica à cultura da cirurgia plástica (tão comum na Coréia), para que a história de amor entre os dois protagonistas não seja apenas uma desculpa para gritarias e delírios bizarros.
A possível leitura camp vem dos espectadores mais generosos. Assim, pode-se encontrar uma certa ironia ou crítica social nas bizarrices e exageros do diretor. Para isso, também é preciso acreditar que tudo que se vê aqui é proposital. Afinal, trata-se de um diretor experiente.
Por outro lado, também se pode pensar que tudo o que se vê fugiu um pouco do controle. Assim, o que no papel parecia interessante, na tela revelou-se excessivo, trash mesmo.
