17/08/2026
Drama

Em Direção ao Sul

No Haiti conturbado dos anos 70, mulheres maduras dos EUA e Europa procuram aventuras sexuais com jovens garotos que ficam numa praia, perto de um hotel. Mas a ameaça da polícia política do regime ronda por perto, pondo em risco esse paraíso provisório.

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É raro que o cinema consiga articular tão bem um diálogo entre intimismo e política como faz aqui o talentoso diretor francês Laurent Cantet (do excelente A Agenda). De quebra, lança uma luz para explicar a longa, exasperante tragédia do Haiti, aqui retratado nos anos 70.

Desde a primeira cena, fica bem claro que não se pretende pintar nenhum cartão postal deste que é considerado o país mais pobre do continente americano. No aeroporto de Port-au-Prince, o gerente do hotel Albert (Lys Ambroise) espera uma de suas hóspedes americanas. Antes que ela chegue, uma haitiana se aproxima e implora que ele leve consigo sua filha de 15 anos. Teme que a menina, bonita como é, seja levada por “eles”. “Eles” são os temidos Tonton Macoute, milícia paramilitar altamente violenta e mortífera a serviço da ditadura de Jean-Claude Duvalier, o “Baby Doc”.

A conversa entre Albert e a mulher expõe a fratura social do país, miserável e dependente do turismo sexual das mulheres como a que o gerente espera para transportá-la ao hotel Petit Anse. Americana de Savannah, Geórgia, Brenda (Karen Young) não está consciente de tudo o que se passa ali, embora esteja voltando ao país pela segunda vez e a visão das favelas pela janela do carro seja mais do que evidente. Nada disso funciona, porque Brenda está obcecada por uma ilusão romântica: volta para reencontrar, três anos depois, o garoto de programa adolescente, Legba (Ménothy César), que lhe deu o primeiro orgasmo, quando ela estava ainda casada e já alcançava maduros 45 anos.

No cenário paradisíaco do hotel, à beira-mar, forma-se um microcosmo que exclui a dura realidade haitiana. Os turistas estrangeiros são, aliás, os únicos realmente a salvo da brutalidade dos Macoutes. Por isso mesmo, ali dentro as preocupações são bem outras.

O escultural Legba tornou-se um rapaz cobiçado pelas turistas maduras que, todo verão, ali desembarcam em busca de aventuras sexuais de curta duração. No momento, quem o monopoliza é Ellen (Charlotte Rampling), cínica professora universitária de 55 anos. Não tem nenhuma ilusão romântica, como Brenda. Sabe que o jogo mantido com Legba depende dos dólares e presentes que lhe dá e que o mantêm. Sentimentos não estão envolvidos.

Consciência semelhante tem Sue (Louise Portal, de As Invasões Bárbaras), funcionária de um depósito que varia sua rotina com seus namorados haitianos. Brenda tem mais dificuldade em aceitar a lógica mercantil e mesmo colonialista por trás de tudo isso. Mas seu desespero existencial de mulher madura e descartada por homens sempre em busca das mais jovens não é nada desprezível. É um detalhe que a aproxima, aliás, de Ellen e Sue.

O personagem mais consciente de que o turismo sexual é apenas a face mais recente do colonialismo é justamente Albert, que esconde um profundo ódio dos brancos, alimentado pela amarga experiência de sua família. Ele é neto de um homem que lutou contra a invasão americana do país em 1915 e que morreu sem nunca ter apertado a mão de nenhum homem branco. Para Albert, a única diferença é que, ao invés dos canhões, agora os colonizadores empunham seus dólares, igualmente destrutivos.

Mesmo com uma carga dramática em tantas direções, Em Direção ao Sul consegue criar momentos de respiro. Suas três atrizes são certamente muito responsáveis pela solidez do filme, bem como o novato Ménothy Cesar, que venceu o prêmio Marcello Mastroianni (para atores estreantes) no Festival de Veneza 2005.

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