Esta comédia romena venceu o prêmio Caméra D´Or, destinado ao melhor primeiro filme do Festival de Cannes, em sua edição de 2006. Usando a auto-ironia como pedra de toque, o jovem diretor e roteirista Corneliu Porumboiu desenvolve seu enredo a partir de um fato histórico fundamental na história de seu país: o 16º. aniversário da queda do dirigente comunista Nicolau Ceausescu, ocorrida em 22 de dezembro de 1989.
Desarmando qualquer solenidade, o cineasta delineia três personagens principais: um apresentador de TV vaidoso e mulherengo, Jderescu (Ion Sapdaru), um professor de História alcoólatra, Manescu (Teo Corban), e um velhinho aposentado, Piscoci (Mircea Andreescu), cuja maior preocupação é vestir-se de Papai Noel a cada Natal. O apresentador prepara um programa sobre o citado aniversário e convida algumas pessoas para o debate. Na hora H, ninguém pode vir e ele improvisa com o professor e o aposentado como convidados.
O programa caberia muito bem como um episódio do nosso “ Casseta & Planeta”, a começar pela total incapacidade do câmera de manter os convidados e o apresentador em foco – o que se torna uma piada à parte dentro do filme, que tem como subtema a situação de penúria, abandono e incompetência da Romênia capitalista. Por ali, ao que parece, a queda do comunismo não rendeu o progresso esperado, o que é visível na aparência desolada das ruas e conjuntos habitacionais em que moram os personagens e na maneira precária com que se tocam todos os aspectos da vida cotidiana.
No debate, porém, o grande assunto é o heroísmo – ou a falta dele. Jderescu tenta saber de seus entrevistados, afinal, se houve ou não houve uma revolução em 1989. O povo foi às ruas em manifestações de protesto, causando a queda do ditador, ou só saiu de casa para comemorar depois de saber que ele tinha fugido do palácio em seu helicóptero? O professor, particularmente, tenta defender a tese revolucionária, colocando a si mesmo entre os que foram às ruas exigir a mudança do regime. Não demora muito, um telespectador telefona, desmontando a versão de Manescu e causando um tremendo desconforto. O velhinho, que não tem muito a comentar sobre nada, fica entediado com a conversa e resolve construir barquinhos de papel diante da câmera vacilante.
A memória é uma coisa capciosa e o mesmo acontece com a visão que um povo tem de si mesmo. Sem querer montar uma tese, A Leste de Bucareste põe o dedo na que deve ser uma ferida séria na auto-imagem dos romenos – mas de maneira leve e irônica. O resultado é nada menos do que brilhante, apoiado num sólido roteiro e no desempenho de três atores realmente afinados.
