A primeira parte, mostrando o treinamento dos espartanos daquela época, é de dar medo a qualquer fuzileiro naval. Não era mole nascer na Esparta daquele tempo. Os meninos, especialmente, não tinham direito a quase nenhuma infância, sendo separados das mães antes dos 7 anos.
Nesse mundo guerreiro, masculino, bélico, até as mulheres eram bastante agressivas. Há apenas uma personagem feminina de relevo, a rainha Gorgo (Lena Headey), mas ela desempenha a contento a função de personificar a porção mulher da história – o que é uma prova do carisma, beleza e talento da atriz inglesa.
O foco, porém, está na guerra. Os espartanos eram mesmo um povo guerreiro, registra a História. E, no momento retratado no filme, sua altiva cidade-estado – que hoje fica em território grego – sofria a ameaça de invasão dos persas (atualmente, iranianos).
Num elenco internacional, o brasileiro Rodrigo Santoro interpreta justamente o imperador persa, Xerxes. Mas sua aparência está bem diferente. Ele é uma figura gigantesca, de cabeça raspada, pele dourada, mãos e braços cobertos de anéis e pulseiras e a voz modificada por computador, produzindo um efeito sinistro. Inevitável, com todo este conjunto, não lembrar de um destaque de escola de samba.
A ação, quase incessante, está no campo de batalha. Usando mais a estratégia do que a força bruta (embora ela nunca falte), o rei espartano Leônidas (o ator escocês Gerard Butler) desafia o veto religioso do oráculo e vai à luta, enfileirando seus 300 homens no estreito desfiladeiro das Termópilas. Aí, força o enfrentamento corpo a corpo com os quase infinitos exércitos persas, causando um estrago inacreditável entre os inimigos.
Aparentemente, não se pretende mais do que apenas entretenimento. E, no sentido técnico, dá-se conta do recado. O elenco, em que se destacam também o australiano David Wenham, o galês Vincent Regan e o alemão Michael Fassbender, corresponde à altura da adrenalina exigida para uma história bélica que valoriza a luta justa e o altruísmo. Nenhum dos 300 combatentes acha que sairá dali com vida. Nem por isso, qualquer deles dá sinais de esmorecer, dentro da mais pura e estrita filosofia militarista.
Com esse visual pop, embalado por trilha idem e o flerte com a sedução da violência garantido pelo uso constante da câmera lenta, poderá haver algum raro espectador pacifista que enxergue aqui uma intenção de justificar, quem sabe, a guerra do Iraque. Pode ser delírio. Até porque achar no interminável conflito atual algum sinal de guerra justa está cada dia mais difícil.
