Alguns anos depois, foi a vez do estreante Cláudio Torres fazer o mesmo com o seu Redentor, esse uma comédia de humor negro que mostrava astutamente que todo mundo é corruptível.
Bruno Barreto deve ter visto algum desses dois filmes – em especial o segundo – quando pensou em fazer a sua adaptação da peça Caixa Dois. Se não viu, deveria ter visto. A intenção aqui é bem clara: falar de um problema brasileiro, fazer-nos rir de nossas mazelas e, assim, criticar a situação do Brasil atual. Preocupações demais para uma comédia popularesca voltada exclusivamente para a classe média.
Baseado na peça homônima de Juca de Oliveira, Caixa Dois tem como centro a corrupção que pode estar embutida em diversos níveis da sociedade - desde o banqueiro rico até a professorinha que ganha mal. Enfim, todos têm seu preço. Aqui, o valor é 50 milhões de reais que vão passando de mão em mão.
Luiz Fernando (Fulvio Stefanini) é um banqueiro que se envolve numa transação e ganha o dinheiro. Porém, por uma série de eventualidades, acaba precisando de um laranja. Sobra para sua secretária Ângela (Giovanna Antonelli), que só aceita a função se ganhar uma parte do dinheiro.
O assistente do empresário faz o depósito na conta errada, e os milhões vão parar nas mãos de Lina (Zezé Polessa), professora primária de escola da periferia, mal paga e supostamente incorruptível. Ela é casada com Roberto (Daniel Dantas), bancário de uma das agências de Luiz Fernando que acaba de ser demitido. Para complicar, Ângela namora o filho do casal.
É uma rede de intrigas não muito complexa, nem muito bem resolvida, mas que funciona mais no teatro do que no cinema. Transitando por poucos ambientes e com poucos personagens, Caixa Dois não consegue fugir da mesmice de teatro filmado. A bem da verdade, há um ou outro diálogo espirituoso e bem sacado, mas eles vêm do texto original. Aqui, a direção de Barreto é impessoal e sem uma identidade, resultando num filme genérico e pouco cinematográfico, que mais parece sitcom.
Caixa Dois se passa em São Paulo – terra de contrastes, como fazem questão de frisar as imagens da abertura. Mas isso não traz nenhum diferencial, pelo contrário, só serve para evidenciar o apanhado de clichês sobre os quais o longa é construído. Temos o banqueiro rico e corrupto, a professorinha pobre porém honesta, o assistente puxa-saco, a secretária que tem emprego porque é bonitona, e por aí vai. Nada que transmita humanidade.
Ao querer criticar o Brasil atual, Caixa Dois troca os pés pelas mãos. Faz a classe média tentar ri de si mesma, e, ao mesmo tempo, legitima a corrupção. Afinal, ladrão que rouba ladrão...
