O próprio Ferrara, em entrevistas sobre o filme, revela ter-se inspirado em situações da vida real, como um programa de televisão de um jornalista que falava sobre Jesus Cristo – idêntico ao personagem Ted Younger (Forest Whitaker) – e a dificuldade de atores saírem de seus papéis quando um filme termina, um processo descrito por eles não raro como particularmente doloroso.
Uma crise deste tipo, justamente, é o ponto de partida para que a atriz Maria Pilesi (Juliette Binoche) decida ficar em Jerusalém, depois de ter atuado num filme sobre Jesus Cristo, em que ela fez o papel de Maria Madalena.
Ela, que era uma atriz famosa e requisitada, resolve isolar-se e continuar sozinha uma profunda redescoberta espiritual provocada pelas sensações que viveu durante as filmagens e que a levam a questionar todo seu modo de vida.
Em Nova York, Ted Younger (Forest Whitaker, Oscar de melhor ator 2006 por O Último Rei da Escócia) é apresentador de um programa de televisão sobre a vida de Cristo, em horário nobre. O novo filme, que está despertando fortes reações de alguns cristãos, é um assunto quente para ele, que resolve entrevistar o diretor, o ambicioso Tony Childress (Matthew Modine).
O desaparecimento da atriz principal intriga Younger, que parte para uma pesquisa incansável sobre o seu paradeiro, levada às últimas conseqüências – ele é até mesmo capaz de seduzir uma de suas melhores amigas em troca do celular de Maria Pilesi.
Jornalista rico, poderoso e bem-sucedido, Ted é aquele tipo de pessoa a quem ninguém diz não e a quem não falta nada. As coisas mudam quando sua mulher (Heather Graham) tem um parto prematuro e o bebê corre risco de vida. Nesse momento, conversar com Maria torna-se para ele a porta para o reencontro de novas prioridades espirituais.
Essa transformação de prioridades existenciais, encarnada por atores tão viscerais quanto Binoche e Whitaker, dá ao filme de Ferrara a voltagem emocional e a credibilidade necessárias. Ainda que não se compartilhe de nenhuma fé, não há como deixar de respeitar suas escolhas.
O enredo reforça também a redefinição da figura bíblica de Maria Madalena, que segundo evangelhos não reconhecidos pela Igreja Católica – como o de Maria e o de Philippe – nunca teria sido prostituta e sim uma das apóstolas mais próximas de Cristo. Por ser mulher, teria sido vítima de machismo e discriminação. Esta é também, aliás, uma das teses sustentadas, com muito mais espalhafato, pelo bestseller O Código Da Vinci, de Dan Brown, adaptado para o cinema. Em Maria, esta discussão sobre a revaloração do feminino é conduzida em tom incomparavelmente mais sóbrio e com objetivos muito diversos.
Ironicamente, foi o sucesso de um filme de estilo e intenções totalmente opostas, apesar de alguma proximidade temática, A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson, que possibilitou que este projeto mais suave e reflexivo encontrasse financiamento. Antes dele, os produtores de Maria só ouviam que “ninguém queria ver um filme sobre religião”.
Outra ironia é que o personagem de Tony Childress, o cineasta autor do filme sobre Jesus, que só quer saber do dinheiro que ganhará a partir da polêmica de seu trabalho, pode até ser visto como uma caricatura do próprio Mel Gibson - que faturou alto com o barulho em torno de A Paixão de Cristo. Muita gente de bem não acredita que tenha feito isto só por razões religiosas, como ele alega.
