18/07/2026
Drama

Alento

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A feiúra parece não assustar o diretor francês Damien Odoul. Em seu longa-metragem de estréia, Alento, ele exibe vísceras de animais e personagens asquerosos, numa França bucólica e desglamourizada. A cena inicial já dá pistas sobre o que deve esperar o espectador: um homem perfura o pescoço de uma ovelha, que servirá de banquete para alguns convidados, ao mesmo tempo em que seu sobrinho está tendo um pesadelo. O berro do animal agonizante confunde-se com o do adolescente que acorda sobressaltado.

Essa ligação entre homem e animal persiste durante todo o filme e serve como metáfora para designar a posição dos personagem na trama. O protagonista é um adolescente rebelde que tem verdadeira fixação por lobos, o que nos suscita uma ligação com o clássico Livro da Jângal, de Rudyard Kipling, escrito em 1894, que conta as aventuras de Mogli, o menino-lobo. Aqui, há uma inversão de posições e o jovem vive cercado por homens sem nenhuma ambição que, na fita, são aproximados aos burros, uma vez que nada mais fazem a não ser trabalhar.

O protagonista é David (Pierre-Louis Bonnetblanc), enviado para a casa do tio, num pequeno sítio na França. A contragosto, o garoto realiza tarefas cotidianas como alimentar animais e buscar lenha, sempre com um walkman no ouvido. Certo dia, enquanto as mulheres estão fora, o tio reúne os vizinhos para um churrasco e anuncia ao sobrinho que permitirá que ele beba vinho e aguardente no almoço. Depois do primeiro pileque, o garoto vaga pelos campos ainda mais contrariado do que nunca.

Alento se vale somente de três mulheres, sendo que uma apenas telefona e as demais realizam minúsculas participações. Dessa maneira, a fita assume um tom visivelmente masculino, mas explicita o lado caótico dessa ausência feminina. A desestruturação familiar também é fundamental para a trama, sendo responsável pelos distúrbios comportamentais do adolescente. Isso é tema de um diálogo entre David e um dos amigos do tio que diz que há de se entender que o pai sempre abandona o filho.

A figura paterna no filme é relacionada às iniciações na vida, enquanto que a responsabilidade pelo carinho e afeto recai sobre a mãe. Mas é com originalidade que o filme nos explica isso. Um personagem que nada fala e a tudo observa, mas que transita normalmente entre os beberrões convidados, troca algumas poucas palavras com o menino. Ele é o único que, contrariando sua natureza, é capaz de amar, mas apenas porque diz ter sido escolhido por Nossa Senhora exclusivamente para esta missão.

Rodada em preto-e-branco, a película tem uma fotografia fortemente contrastada, talvez para dar a Alento um aspecto ainda mais rude. A ressalva fica a cargo de um incidente envolvendo o protagonista e que poderia ter sido melhor aproveitado em termos dramáticos. Mas ele também prova a maneira grosseira e desajustada adotada pelos homens na resolução de seus problemas.

Cineweb-26/4/2002

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