É sempre doloroso ver crianças sofrendo – e não há porquê escamotear isto. Diferente é que o filme, mesmo conduzido num tom emotivo, procura iluminar um trajeto de superação que nunca é mágico, ou excessivamente heróico. Todo o esforço empreendido por Mirco (Luca Capriotti) para ser normal tem, portanto, o poder de despertar empatia, não pena, como costuma acontecer na média dos melodramas habitados por personagens com algum tipo de deficiência.
No começo do filme, Mirco brinca de cabra-cega com os amigos num vasto campo – um cenário que se repetirá, adiante, quando ele tiver perdido a visão, num estúpido acidente doméstico (o garoto mexia numa espingarda do pai quando o ouviu chamá-lo e caiu, num disparo acidental). A brincadeira de olhos vendados sinaliza a situação do menino, que não perde só a visão. Com apenas 10 anos de idade, perde o ambiente, os amigos, muda de cidade e de escola porque, até 1985, a lei italiana proibia deficientes visuais de freqüentarem escolas públicas. Por isso, eram forçados a estudarem apenas em institutos especiais, segregados dos demais alunos – o que vai totalmente contra a mentalidade moderna, que vê benefícios justamente na convivência de pessoas diferentes.
A maior qualidade do filme de Bortone, que escreveu também o roteiro – com Paolo Sasanelli e Mônica Zapelli – é justamente investir na luta de Mirco, com a ajuda de sua melhor amiga, uma menina que mora ao lado, em manter viva sua imaginação. O que, no caso, significa montar toda uma fábula com reis, rainhas e seres fantásticos, usando os sons que ele grava incansavelmente, subvertendo a rígida disciplina da escola. É difícil resistir a esta mensagem libertária ainda mais sabendo que, na vida real, ela teve um final feliz.
