As ruas e os trilhos da cidade de São Paulo têm conquistado as telas nos últimos tempos, reflexo da necessidade de deslocamento diário do paulistano no caminho para o trabalho. Na ficção, o tema já esteve representado no premiado “Os 12 Trabalhos” e no ainda inédito Não Por Acaso (com estréia prevista para o próximo mês).
No segmento documental, estréia nesta sexta-feira, em São Paulo, Em Trânsito, dirigido por Henri Arraes Gervaiseau, professor da ECA-USP e também coordenador do núcleo audiovisual do Centro de Estudos da Metrópole.
O filme apresenta pessoas de diversas classes sociais e aborda seu relacionamento com os meios de transporte e as ruas, calçadas e trilhos da cidade. São quinze personagens, alguns dos quais gastam várias horas do dia no deslocamento para o trabalho, enquanto outros têm a sorte de poder trabalhar perto de casa.
Há um olhar curioso e sociológico de Gervaiseau, que conseguiu encontrar personagens bem interessantes que comprovam a grande perda de tempo nos deslocamentos do dia-a-dia. Uma empregada doméstica, por exemplo, caminha 22 quilômetros para chegar ao seu trabalho. Um pastor evangélico aproveita o longo trajeto de trem para fazer suas pregações.
Mas a presença do diretor muitas vezes chega a ser invasiva, induzindo as respostas de seus entrevistados. Num dado momento, Gervaiseau pergunta a um motorista de ônibus se ele é católico. Antes de ouvir a resposta, o professor emendou: “ou cheio de dúvidas como eu?”. Ficou clara a inibição do entrevistado de dar sua opinião, intimidado pelas intromissões de uma pessoa mais culta, ele acaba dizendo que pensa como o entrevistador.
Em Trânsito é bem-intencionado ao retratar o drama dos paulistanos que enfrentam o trânsito congestionado e se espremem diariamente nos meios de transporte. Para uma das entrevistadas, ficar presa no trânsito permite “um momento de reflexão”. O filme, no entanto, não estimula a reflexão para a solução de um antigo problema urbano da cidade.
