20/07/2026
Documentário

Fabricando Tom Zé

Nascido em Irará (BA) e morador há décadas em São Paulo, o cantor e compositor Tom Zé foi um dos pais do Tropicalismo. Mas, ao contrário de Gil e Caetano, ficou relegado ao ostracismo por muito tempo. Redescoberto por David Byrne, ele ganhou fama no mundo. Neste documentário, ele conta um pouco de sua vida e de sua enérgica forma de viver e compor.

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O mundo fala a língua de Tom Zé. E não é necessário conhecer qualquer palavra em português para entrar em sintonia com o que diz e o que canta o baiano de Irará em suas andanças mundo afora. A música é o idioma que ele emprega para se comunicar com as platéias de seus shows.

Não há como ficar indiferente a esse músico que nunca está unpluged. Sua irreverência, seu humor e seu jeito muito particular de compor e se relacionar com o mundo foram bem captados pelo diretor Décio Matos Jr. no documentário Fabricando Tom Zé, rodado em São Paulo, em Irará, na Itália, Suíça e França, durante uma turnê internacional com seu grupo, em 2005. Em 2006, antes de chegar ao circuito comercial, já havia vencido os prêmios de público da Mostra Internacional de São Paulo e do Festival do Rio.

Aos 70 anos, “o mais paulista dos baianos”, segundo a definição precisa de Caetano Veloso, esbanja uma energia vigorosa, apesar de seu corpo franzino e seu jeito chapliniano que emociona nos gestos mais simples e transmite uma aparente necessidade de proteção. E a câmera do diretor de fotografia Lula Carvalho, filho do competente Walter Carvalho (A Janela da Alma), consegue se aproximar do artista com total liberdade, mesmo nos raros momentos em que ele se transforma e parece encarnar outra pessoa. Como no festival de jazz de Montreux, na Suíça, quando se rebelou contra o pouco caso de um técnico que, durante a passagem de som que sempre antecede os shows, a pretexto de não compreender as reclamações do artista em seu inglês precário, tenta humilhá-lo. O que a câmera registra é um Tom Zé possesso, furibundo, tomado por uma ira santa, exigindo respeito ao seu trabalho, xingando e avançando sobre o técnico, que acaba caindo sobre os equipamentos. É Davi contra Golias. Resultado: técnico substituído e problema resolvido para felicidade da platéia que acompanhou um show memorável.

Mas esse não é o mesmo Tom Zé que assumiu as funções de jardineiro do condomínio onde mora, em São Paulo, e planta rosas diante do prédio. Ou que conversa com o farmacêutico do bairro e sabe o nome dos motoristas de táxi que o transportam e com quem fala sobre seus problemas.

O desabafo em Montreux ajuda a entender também o perfeccionismo de um artista que quer sempre se superar. “Sou muito exigente com meus filhos”, diz, referindo-se às suas músicas. “Tenho de inventar algumas coisas que os outros não fazem, porque o que os outros artistas sabem fazer e sabem cantar eu não sei. Tenho de fazer uma pequena invenção cada vez que tenho uma idéia que acho digna de se transformar em música.” Num dos shows, na Itália, voltou cinco vezes para o bis. Uma apresentação, que dura em média uma hora e meia, pode chegar a duas horas, por conta das mudanças que faz no roteiro, da introdução de músicas que não estavam previstas e ensaiadas e das inúmeras vezes que retorna ao palco depois do encerramento.

Mesmo não sabendo falar outras línguas, antes de cada show internacional, Tom Zé convoca um tradutor para ajudá-lo a escrever algumas mensagens na língua local e assim poder brincar com o público em seu próprio idioma. Numa das raras vezes em que isso não funcionou, numa apresentação na França, chegou a compor uma música com versos em francês, que não foram acompanhados pela platéia, que dava mostras ostensivas de desaprovação. Mas foi uma exceção. Normalmente suas apresentações são um verdadeiro happening.

Tom Zé sempre foi considerado um dos ícones do tropicalismo na época dos festivais de música popular, no final dos anos 1960. O que acabou gerando desconforto em Caetano Veloso e Gilberto Gil, que estavam à frente do grupo de músicos baianos e eram reconhecidos como seus líderes. Em depoimento no filme, Caetano faz um mea culpa desse episódio, responsável pelo ostracismo de Tom Zé nas décadas seguintes. “Quase deixamos Tom Zé ser esquecido, em muito pouca medida pelas carências dele, suas incapacidades ou incompetências e muito mais pela singularidade de sua genialidade.”

O crítico Tárik de Souza afirma que o músico de Irará tem mais bagagem musical que Caetano Veloso e Gilberto Gil. “Ele é quem tem formação mais sólida, estudou com os teóricos, como o maestro Koellreuter.”

Foi preciso que um músico estrangeiro, David Byrne, depois de ouvir o disco Estudando o Samba (obra que Tom Zé considera a mais radical em sua produção) o resgatasse e o convidasse para shows nos Estados Unidos e Europa. “É o velho provincianismo brasileiro: se um estrangeiro deu aval, então ele deve ser bom”, ironiza Tárik.

O final da história é o que o filme mostra: a consagração de Tom Zé no exterior e agora no Brasil, uma fonte de inspiração, compondo músicas que não se enquadram em nenhum rótulo. “Ele está colhendo agora os frutos que plantou há dez anos”, reconhece o baixista Daniel Maia, uma espécie de maestro da banda que segue o compositor em suas estrepolias.

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