18/07/2026
Documentário

Person

Documentário retrata a vida pessoal e profissional de Luiz Sérgio Person (1936-1976), um dos mais importantes nomes do cinema independente paulista, com filmes como "São Paulo S/A" e "O Caso dos Irmãos Naves". No Sesc Digital até 23/5/2025.

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Diretor de apenas cinco filmes, o cineasta paulista Luiz Sérgio Person (1936-1976) passou à história do cinema brasileiro como um de seus nomes mais criativos e promissores. Com todo o mérito, aliás, já que entre estes filmes contam-se São Paulo S/A (1965) e O Caso dos Irmãos Naves (1967), dois marcos da renovação do cinema independente paulista.

Dirigido por sua filha mais velha, Marina Person, que aqui faz sua estréia em longa-metragem – anteriormente, ela dirigiu curtas como o premiado Almoço Executivo (1996) –, o filme ganha um peso intimista. O lado familiar do cineasta, morto num acidente de carro semanas antes de completar 40 anos, aparece particularmente nos trechos de pequenos filmes domésticos, feitos por ele mesmo em câmera super-8, mostrando Person e sua mulher, Regina Jehá, brincando com as filhas, Marina e a hoje jornalista e atriz Domingas Person, na praia e em sua casa.

A própria Marina fala de suas lembranças do pai, que morreu quando ela tinha apenas 6 anos. Ela mesma entrevista sua irmã e sua mãe, conseguindo momentos e declarações emocionados mas admiravelmente contidos.

Marina conduz também as diversas entrevistas com amigos e colaboradores do pai, de onde emergem comentários que permitem situar melhor seu temperamento explosivo e entusiasmo criador. É o caso do cineasta Carlos Reichenbach, seu ex-aluno, que conta um divertido dia em que, irritado com o mau comportamento dos estudantes na classe, Person desancou-os: “O único aqui dentro que vai ser diretor de cinema é aquele gordo de óculos”. O “gordo” era Reichenbach.

Os atores Walmor Chagas e Eva Wilma recordam bastidores das filmagens de São Paulo S/A, primeiro filme da carreira de Walmor, então um consagrado ator do TBC. Outra entrevista, do crítico e roteirista Jean-Claude Bernardet – parceiro de Person no roteiro de O Caso dos Irmãos Naves, premiado no Festival de Brasília –, recupera a história de um dos projetos frustrados iniciados pela dupla, um filme com Roberto Carlos e a turma da Jovem Guarda.

Mais do que pelo Cinema Novo, ao qual não pertencia, Person teria sido influenciado pelo neo-realismo e o cinema político italiano, especialmente porque estudou cinema na Itália, no Centro Esperimentale di Cinematografia. Nesse país, ele dirigiu três curtas, Il Ladro (1962), que representou a Itália nos festivais de Veneza e Bilbao, L’Ottimista Sorridente e Il Palazzo Doria Pamphili (ambos de 1963).

Outro momento bastante revelador é a longa entrevista à televisão em que o próprio Person fala com desconcertante sinceridade sobre seus altos e baixos, sua passagem pela propaganda, seu colérico desabafo contra poderosos publicitários que o humilharam. O cineasta trabalhou quatro anos fazendo filmes publicitários, depois do fracasso de sua paródia de faroeste Panca de Valente (1968). Detalhes deste duro período são contados por seu sócio e montador de filmes como O Caso dos Irmãos Naves, Glauco Mirko Laurelli.

Person emerge deste retrato não só como a pessoa cuja falta ao mesmo tempo nutre e assombra sua família, mas como o cineasta independente e aguerrido que ele foi. Não deve ter sido simples para Marina Person enfrontar esta sombra íntima e pessoal. Levou alguns anos de tentativa e erro mas o resultado é amplamente positivo.

Mérito nada desprezível, aliás. Álbuns de família documentais ocasionalmente não conseguem voar mais alto do que as próprias recordações. Numa época em que há excesso de exposição, não é pouca coisa achar o tom certo entre a honestidade e o pudor. Person localiza esta fina fronteira e delimita um território em que o afeto pode conviver com a admiração sem a necessidade da santificação absoluta. Ao final da projeção, enxerga-se mais do homem e do cineasta.

 

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