Uma imagem define toda a proposta deste documentário. Trata-se da réplica do Big Ben que existe na vila de Paranapiacaba (SP). A versão reduzida do famoso relógio inglês está praticamente abandonada, como o vilarejo, parada no tempo (literal e metaforicamente). O tema aqui é exatamente a extinção – não de objetos ou lugares, mas de profissões.
O trio de diretores, Lucas Bambozzi, Beto Magalhães e Cao Guimarães, já realizaram outras experiências juntos, e aqui transformam documentário em poesia visual. Em 2001, O Fim do Sem Fim ganhou um prêmio de Renovação de Linguagem, no Festival É Tudo Verdade, além de outras premiações internacionais. O mais novo trabalho dos mineiros Guimarães e Magalhães, Andarilho, será exibido na mostra Horizonte do Festival de Veneza, que começa no final de agosto. Guimarães, o mais conhecido deles, é também diretor de outros documentários extremamente criativos, como Acidente (2006), exibido no Festival de Sundance, e A Alma do Osso (2004).
O que faz uma pessoa quando a sua profissão deixa de ser necessária para a sociedade? Num tempo em que as pessoas são aquilo em que trabalham, O Fim do Sem Fim segue indivíduos que estão perdendo a sua identidade e lugar no mundo pois seus ofícios foram substituídos. Percorrendo 20.000 km em 40 cidades e dez estados, os diretores elegem seus personagens: fotógrafo lambe-lambe, parteira, lanterninha de cinema, sineiro, recarregador de isqueiros, maestro de galos e um raríssimo Benshi, espécie de narrador de filmes nos tempos do cinema mudo em cinemas da comunidade japonesa.
Essas pessoas são o retrato de um mundo em constante evolução que não deixa muito espaço para os pequenos, para aqueles que realizam algo pouco ligado à tecnologia. Para um entrevistado que se diz profeta, Nostradamus estava certo quanto ao fim do mundo – mas não é que o mundo vai deixar de se existir, ele vai se transformar. “As novas tecnologias representam o mundo novo. E o tempo é o que há de mais precioso”, filosofa.
Os diretores parecem concordar com essa máxima. E dão o tempo que cada personagem necessita para crescer na tela. O que se tem são retratos melancólicos de uma realidade cruel. Não por acaso, a maioria deles são idosos, cujas profissões foram substituídas por algo menos artesanal. Representam valores mais puros e tradicionais tentando sobreviver ao poderio e ao caos tecnológico do século XXI.
