A canção é o centro do segmento Alguma Coisa Acontece, da diretora e atriz portuguesa Maria de Medeiros, filmado na clássica esquina entre as avenidas Ipiranga e São João. Também encerra o último episódio, em que o alemão Wolfgang Becker (diretor de Adeus Lênin) busca referências nas ruas da cidade ultramoderna até encontrar uma rara e saudosista loja de discos de vinil.
A arquitetura caótica de São Paulo, visivelmente, espanta e maravilha os cineastas estrangeiros. O australiano Philip Noyce (diretor de filmes de ação como Perigo Real e Imediato e do suspense O Colecionador de Ossos) escolhe o básico ao dirigir-se ao marco zero da cidade, na praça da Sé, registrando a visita de estudantes que parecem saber tão pouco quanto ele da memória paulistana.
O centro velho é o cenário de Manhã de Domingo, episódio do finlandês (radicado no Rio) Mika Kaurismaki, que acompanha o silêncio e a calma de uma manhã domingueira nos mesmos locais em que, durante a semana, se acotovelam pedestres, camelôs, carros, ônibus.
Um dos maiores nomes da Nouvelle Vague japonesa nos anos 60, Kiju Yoshida tenta um pequeno balanço intimista da imigração japonesa, um dos traços mais marcantes da cidade, a partir de uma entrevista com uma garçonete nissei de um restaurante do bairro da Liberdade. A entrevista é realizada por sua mulher, Mariko Okada, grande atriz do cinema japonês, que consegue extrair da conversa um princípio de crítica quanto ao tratamento recebido pelos dekasseguis no Japão.
Um ensaio da escola de samba Vai-Vai surpreende o olhar do diretor palestino Hanna Elias em Ensaio Geral. A colorida diversidade alimentícia de uma feira livre domina o episódio Fartura, da mexicana Mercedes Moncada e do venezuelano Franco de Peña.
O malaio Tsai Ming-Liang retorna à chave arquitetônica, observando o cotidiano de um dos maiores cortiços verticais do centro da cidade. O filme, como acontece em vários trabalhos do diretor de O Rio (97) e O Buraco (98), tem na água um elemento fundamental, aqui através de uma providencial tempestade.
O israelense Amos Gitai, arquiteto de formação, raciocina sobre as semelhanças entre um aeroporto e um supermercado e o constante processo de autofagia das metrópoles, no episódio Modernidade. Explorando o mesmo universo, foram menos felizes os segmentos Signos, de Max Lemcke (Espanha), e Formas, do italiano Andrea Vecchiato. Uma das realizações mais bem-feitas é de Daniela Thomas ao acompanhar as mudanças no Minhocão, de dia, de noite, nos finais de semana, em Odisséia.
O registro de personagens despossuídos da cidade comparece em Esperança, em que o britânico Ash dá voz a um jovem travesti cheio de sonhos românticos, embora seu cotidiano seja a prostiuição na rua. Essa esperança é também é a tônica de Esperando Abbas, em que Leon Cakoff reencontra um morador de rua observado, anos atrás, pelo cineasta iraniano Abbas Kiarostami. A perda e a passagem do tempo impregnam os episódios Novo Mundo, do norte-americano Jim McBride, Natureza Morta, de Cakoff e Renata de Almeida. Uma boa seleção de fotos antigas e raras da cidade completa este fio histórico, intercalando os episódios.
Irregularidade é praticamente impossível de evitar num projeto coletivo como este, sem contar as naturais limitações de tempo e de recursos com que cada diretor contou para seu episódio. Ainda assim, é um projeto com mérito. Não haveria como esgotar São Paulo e seu enorme mistério num único filme.
