4 Meses, 3 Semanas E 2 Dias (título difícil de guardar, mas que faz muito sentido) faz parte do chamado renascimento que o cinema romeno começou a vivenciar nos últimos anos, com filmes como A Morte do Senhor Lazarescu (2005), de Cristi Puiu , e 12:08 A Leste de Bucareste (2006), de Corneliu Porumboiu - que foi exibido no Brasil -, além de California Dreamin’, também premiado na mostra Un Certain Regard 2007, em Cannes, e cujo diretor Cristian Nemescu, morreu num acidente de carro em 2006. É um cinema que combina forma e conteúdo explorando os horrores da experiência comunista.
A Palma de Ouro no ano passado, aliás, coincide com o aniversário de 50 anos do primeiro prêmio do cinema romeno em Cannes, o curta Short History, de Ion Popescu-Gopo. Depois disso, a cinematografia do país produziu nomes como Dan Pita e Mirceal Daneluic, cujas obras se destacam em festivais até hoje.
Enquanto ...Lazarescu e Bucareste começaram a chamar a atenção no circuito de festivais – o primeiro continua inédito no Brasil – 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias consolidou a atenção dispensada a essa cinematografia. O filme inaugura uma série criada pelo diretor que tem o título irônico de “Contos De Uma Era Dourada”, referindo-se ao período comunista do país.
Em 4 Meses..., o diretor e roteirista Mungiu encontra uma intersecção entre a vida de seus personagens e os últimos dias do comunismo na Romênia – ou seja, usa o plano pessoal para falar de um momento histórico. Quem passa por uma verdadeira via crúcis é a personagem Otília (Anamaria Marinca, escalada no novo filme de Francis Ford Coppola), que precisa, enfrentar, entre outras coisas a dificuldade de abastecimento em seu país, no final dos anos de 1980.
Jovem moradora de uma república, aos 20 e bem poucos anos, mas com uma certa experiência de mundo, ela terá de enfrentar horrores para salvar a pele de uma amiga, Gabita (Laura Vasiliu), que é ingênua e tem uma tendência a fazer tudo errado. Ela está grávida, e pretende fazer um aborto. Porém, essa prática é proibida no país desde os anos de 1960, quando o governo queria aumentar o índice de natalidade.
Nada na Romênia comunista é fácil – desde comprar um sabonete até encontrar alguém que saiba fazer um aborto com segurança. Porém, as garotas vão seguir em frente com seu plano, conseguem dinheiro, um profissional para fazer o trabalho e um quarto de hotel. Só quando as moças estão com Bebe (Vlad Ivanov),o aborteiro, Mungiu revela que o passeio dessas meninas pelo inferno está apenas começando.
Para Mungiu menos é mais, e aí que residem algumas das maiores qualidades do filme. O cineasta reserva a 4 Meses... apenas o essencial, seja na sua composição da narrativa ou no plano visual. A câmera acompanha Otília em sua trajetória, levando o público a compartilhar suas experiências – praticamente nenhuma agradável. Às vezes, ela parece cumprir sua missão em estado de choque, quase catatônica.
4 Meses... cresce num ritmo de suspense. As suas imagens em tons escuros chegam a ser tão asfixiantes quanto a experiência das personagens. Há sempre algo atrapalhando uma suposta ordem que poderia se instaurar. Como já declarou o diretor, tudo aquilo no filme que poderia ser agradável ou encenado foi eliminado – o que sobra é algo que vai bem além da representação da vida.
Não existe um mundo dividido entre personagens bons e maus – o que há em 4 Meses... são pessoas tentando sobreviver a adversidades, em especial àquelas advindas do Estado. Se Otília será uma pessoa melhor ao final de sua trajetória não podemos saber. O que a história nos diz é que seu país e o mundo mudaram. Ceausescu foi executado em 1989 – mesmo ano em que o Muro de Berlim caiu e uma nova ordem mundial começou a se estabelecer.
Mungiu, Puiu e Porumboiu nasceram todos depois da proibição do aborto, em 1966, e por isso o diretor 4 Meses... se intitula ‘filho do decreto’. Cresceram em meio ao regime de Ceausescu e estavam na adolescência quando o ditador foi executado. Esta é a primeira geração a poder retratar o comunismo no cinema sem ser obrigada a valer-se de alegorias. É um cinema baseado num humanismo – o que muito os aproxima dos irmãos Dardenne – e que fala do passado, sem se esquecer do presente.
