As profecias, geralmente, são uma das muletas narrativas mais usadas na cinematografia, principalmente no gênero terror. Quem nunca viu um filme em que não houvesse um presságio, bruxa, vidente ou oráculo, para mistificar o enredo e converter uma personagem em herói?
A providência é, enfim, um elemento oculto fundamental, que, invariavelmente, confere aos idealizadores da obra uma oportunidade de não atender ao verossímil, ou mesmo ao bom-senso.
O fato de o roteiro de 10.000 AC se apoiar em não apenas uma, mas em quatro profecias é que faz o filme ser o que ele é. Não faltaram, na apresentação para a crítica, risadas espontâneas diante do que se passava na tela. Fato que, na opinião de muitos, é o prenúncio de um desastre.
O filme se passa no final da era glacial, quando os habitantes de uma tribo de caçadores de mamutes começam a perceber que as mudanças climáticas irão levá-los a um novo estilo de vida. Nesse contexto, nasce a primeira profecia: durante a última caçada, será revelado o grande líder que guiará o grupo a um novo futuro.
O narrador (Omar Shariff), em off, no início da projeção, não esconde que esse homem será o jovem D'Leh (Steven Strait, de O Pacto). Ele conseguirá, armado apenas com uma lança feita com ossos, matar o grande mamute e, assim, ser o importante líder e desposar Evolet (Camilla Belle, de Quando um Estranho Chama). A moça, conhecida com “a criança de olhos azuis” possui uma profecia própria, não bem explicada, mas essencial para o desfecho da trama.
Camilla, que é filha de uma brasileira, e fala fluentemente o português, aliás, está escalada no elenco do próximo filme de Heitor Dhalia, À Deriva, cujas filmagens devem começar no Brasil em abril.
O filme realmente engrena quando um grupo de cavaleiros, chamados “demônios de quatro patas”, seqüestra boa parte da tribo de D'Leh, incluindo sua noiva, Evolet. O rapaz, que escapou por pouco, dá início a sua jornada para resgatar seu povo e seu amor.
Depois de atravessar as montanhas geladas (imagina-se que eles estejam em alguma região européia), D'Leh conhece outras tribos que não imaginava existir. Eles também foram vítimas dos cavaleiros e se unem à luta do jovem.
No entanto, o herói precisa mostrar valor para liderar seu pequeno novo exército. Providencialmente, D'Leh ajuda um tigre dente-de-sabre a fugir de uma armadilha. Agradecido, o animal passa a socorrê-lo em momentos-chave da trama. Como uma das tribos tem como profecia seguir o jovem que conversa com os animais, a relação do tigre e o rapaz é suficiente para reunir todos sob sua liderança.
Após escalar geleiras, passar por florestas tropicais, cruzar o semi-árido africano, o grupo chega a um imenso deserto de areia, onde descobre-se o motivo pelo qual os cavaleiros aprisionaram seus entes queridos: eles servirão de escravos para construir pirâmides. Não é explicado quem é esse povo, ou mesmo como sobrevivem. Só se pode supor que sejam os primeiros egípcios.
Os únicos nativos que aparecem no filme são os ajudantes de um suposto Deus da Pirâmide, uma figura misteriosa e deformada que coordena as construções. Muito embora não tenha um povo para governar, o tal deus tem uma profecia: ele só pode ser morto pelas mãos do “grande caçador”, que chegará com a “criança de olhos azuis”. Nada é sutil no enredo.
Qualquer livro de História poderia contestar qualquer uma das informações passadas pelo filme. A começar pela confecção de pirâmides gigantescas há mais de 12 mil anos, levantadas às custas do trabalho de mamutes. Mas isso é apenas um dos detalhes mal contados.
O cineasta Roland Emmerich (de Independence Day e O Dia Depois de Amanhã), que assina a direção e o roteiro de 10.000 A.C., erra de todas as formas nesta produção. Steven Strait não tem qualquer carisma, a trilha sonora incidental é uma reciclagem de seus filmes anteriores, os diferentes cenários (principalmente o da floresta tropical) são risíveis, as cenas de luta são mal coreografadas e o roteiro é uma fonte de absurdos. Com todos esses defeitos, 10.000 A.C. pode ser considerado anedótico.
