20/07/2026
Drama

O Sol

Em agosto de 1945, Tóquio foi bombardeada e bombas atômicas foram lançadas sobre Hiroshima e Nagasáqui. Isolado no que restou de seu palácio, o imperador japonês Hiroíto prepara-se para abrir mão da sua proclamada divindade e para a rendição às tropas americanas, lideradas pelo general MacArthur.

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Terceiro filme de uma anunciada tetralogia do diretor russo Aleksandr Sokurov dedicada ao poder, O Sol compartilha com os dois anteriores - Moloch – Eva Braun e Adolph Hitler na Intimidade (99) e Taurus (2001) – uma exposição dessacralizada de seus protagonistas. Imbuídos de tanta autoridade que por algum tempo pareceram invencíveis, Hitler, no primeiro filme, Lênin, no segundo, e o imperador japonês Hiroíto, no terceiro, são revelados como seres humanos em situações de acuamento e fragilidade. Hitler, por viver os últimos dias de seu governo e estar confinado ao seu bunker. Lênin, por estar doente e ter sido destituído de seus poderes pelo novo governante, Stálin.

Em agosto de 1945, Hiroíto (Issei Ogata) ainda é visto por seus súditos e servidores como um deus, que se acredita descender diretamente do sol. Tóquio já foi destruída por milhares de bombas. Hiroshima e Nagasáqui foram varridas do mapa por bombas atômicas. Milhares de japoneses foram mortos ou severamente feridos. Assim, os rituais que cercam Hiroíto, para vesti-lo, servir seu chá ou reverenciá-lo parecem um tanto ridículos. Ainda mais que seus domínios, depois dos bombardeios, foram reduzidos a um bunker subterrâneo e a um único bloco do antigo palácio, o laboratório.

Todo o filme é impregnado de uma atmosfera de irrealidade, a começar pelos tons sépia ou esverdeados dos ambientes, às vezes percorridos por uma certa névoa. Como se Hiroíto vivesse dentro de um sonho. De certa forma, ele vive. Seu resto de palácio, este laboratório onde ele observa formas de vida marinhas, seu quarto minúsculo como se fosse de brinquedo, os longos corredores coalhados de guardas armados e mesmo um inesperado jardim de rosas diante do edifício, tudo isto parece fazer parte de um pesadelo. Mal se nota a diferença quando Hiroíto vivencia um pesadelo real, em que ele assiste ao bombardeio das cidades japonesas, enxergando entre as chamas gigantescos insetos voadores.

A realidade entra por sua janela no dia em que Hiroíto é convocado a um encontro com o chefe das forças de ocupação, o general MacArthur (Robert Dawson). Pelas janelas do carro americano, o imperador só vislumbra os destroços do que até há pouco era a capital do império e seus orgulhosos habitantes, muitos até não tanto tempo atrás ainda convencidos de que a guerra era legítima e de que poderiam vencê-la.

Embora disseque as bases da destruição do poder do mandatário japonês, nem por isso Sokúrov deixa de mostrar alguma piedade. Mostra-se Hiroíto como uma figura humana digna de pena em mais de um momento, com seus problemas nos dentes, sua inapetência, na preocupação com o vestuário que envergará no encontro com seu vencedor. Abre-se espaço para uma visão crítica também dos orgulhosos recrutas americanos, que pisam sem cuidado os gramados do imperador, importunam o pássaro exótico que passeia entre as plantas, rindo e fazendo barulho sem o menor respeito pela cultura e privacidade do povo vencido.

A truculência nos mínimos detalhes das tropas de ocupação, porém, não é o objeto do filme. É apenas mais um dado para a análise dos mecanismos mediante os quais se exerce o poder, conduzida com serenidade pelo diretor russo. Talvez a idéia mais contundente que toca seja a da responsabilidade. No jantar com MacArthur, Hiroíto refere-se à chacina de Hiroshima e Nagasáqui. Ao que o general americano retruca, dizendo que nada teve a ver com a ordem desses bombardeios. Em seguida, MacArthur recorda a Hiroíto que antes houve Pearl Harbor. Calmamente, o imperador lhe contesta que também não veio dele a ordem para aquele ataque. Verdade ou mentira, a conversa evidencia a longa cadeia de intermediários que sustenta o poder e que é tão frágil uma vez que se destrua uma de suas peças, como um dominó desgovernado.

No site russo dedicado à sua obra (www.sokurov.spb.ru) , o diretor comenta sobre este trabalho: “Não faço filmes sobre ditadores. Faço filmes sobre pessoas que são mais extraordinárias do que o resto deles. Pareciam ter o poder supremo. Mas a fragilidade humana e a paixão afetaram seus atos, tanto quanto o status e as circunstâncias. Qualidades humanas e caráter são superiores a qualquer situação histórica. Superiores e mais fortes”. O comentário evidencia o quanto não é mesmo a política o foco desta tetralogia, em que o quarto capítulo, já anunciado, será sobre Fausto, o homem que vendeu sua alma ao diabo.

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