Clara (Arieta Correa) é uma garota de programa que, durante o dia, fotografa seus vizinhos pela janela do apartamento. É uma colecionadora de imagens. Além das fotos, reúne reproduções de Matisse, Monet, Edvard Munch, Paul Klee. Traça, a partir delas, uma história pessoal, tornando concreta a sua procura íntima. Clara é outra solitária.
Artur (Fábio Malavoglia) é um motorista de táxi, que também coleta imagens de prédios e monumentos de São Paulo. Através do encontro dele com Clara, começa-se a ouvir mais diálogos no filme – porque a procura de Otávio e Clara é eminentemente silenciosa. Como os dois outros personagens, Artur relaciona-se com os espaços, com a geografia da metrópole paulistana, inclusive ao decorar o interior de seu táxi com mapas de seu emaranhado de ruas, um mundo que parece infinito e devorador.
Caminha no rumo de uma imersão na linguagem poética, não de uma narrativa convencional, a proposta deste filme de Marcelo Masagão, conhecido por um cinema autoral de cunho formal bastante marcado – como se observa em trabalhos anteriores, como o premiado Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos (1999) e 1,99 – Um Supermercado que Vende Palavras (2003). Ainda assim, trata-se do filme em que as emoções dos personagens atingem sua maior temperatura, talvez por incorporarem uma dramaturgia sensivelmente mais marcada do que seus trabalhos anteriores. O filme é cheio de silêncios, mas não de vazios. As próprias paisagens de São Paulo falam destes personagens que se escondem em suas dobras. Mas a descoberta de um sentido depende de cada espectador.
