20/07/2026
Drama Comédia

Otávio e as Letras

Otávio coleciona letras e palavras, recortadas de revistas. Clara coleciona imagens, fotos e pinturas. Artur também fotografa e dirige um táxi. Os três se encontram na cidade de São Paulo.

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Otávio (Donizete Amazonas) coleciona letras. Constrói palavras a partir de recortes de jornais e revistas que caça e acumula e em cujas páginas faz intervenções a caneta. Com esse material, cria pacotes de mensagens e poemas, que vai deixando em lugares públicos da cidade de São Paulo. Trata-se de uma espécie de intervenção físico-intelectual, que parece substituir um contato humano, uma conversa. Otávio é, sem dúvida, um solitário refugiado em sua caverna, um apartamento que tem suas paredes igualmente forradas de papéis cobertos por palavras, muitas palavras.

Clara (Arieta Correa) é uma garota de programa que, durante o dia, fotografa seus vizinhos pela janela do apartamento. É uma colecionadora de imagens. Além das fotos, reúne reproduções de Matisse, Monet, Edvard Munch, Paul Klee. Traça, a partir delas, uma história pessoal, tornando concreta a sua procura íntima. Clara é outra solitária.

Artur (Fábio Malavoglia) é um motorista de táxi, que também coleta imagens de prédios e monumentos de São Paulo. Através do encontro dele com Clara, começa-se a ouvir mais diálogos no filme – porque a procura de Otávio e Clara é eminentemente silenciosa. Como os dois outros personagens, Artur relaciona-se com os espaços, com a geografia da metrópole paulistana, inclusive ao decorar o interior de seu táxi com mapas de seu emaranhado de ruas, um mundo que parece infinito e devorador.

Caminha no rumo de uma imersão na linguagem poética, não de uma narrativa convencional, a proposta deste filme de Marcelo Masagão, conhecido por um cinema autoral de cunho formal bastante marcado – como se observa em trabalhos anteriores, como o premiado Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos (1999) e 1,99 – Um Supermercado que Vende Palavras (2003). Ainda assim, trata-se do filme em que as emoções dos personagens atingem sua maior temperatura, talvez por incorporarem uma dramaturgia sensivelmente mais marcada do que seus trabalhos anteriores. O filme é cheio de silêncios, mas não de vazios. As próprias paisagens de São Paulo falam destes personagens que se escondem em suas dobras. Mas a descoberta de um sentido depende de cada espectador.

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