Com base em relatos reais, mostra-se como foi a recepção dos reféns japoneses, seqüestrados por rebeldes iraquianos em 2004, quando finalmente voltaram ao seu país. Não apenas foram sistematicamente hostilizados em suas comunidades, como também viram seus familiares tornarem-se alvos de discriminação por parte de uma sociedade em que as tradições ainda soam tão fortes quanto a modernidade.
Para ilustrar essa dramática situação, Kobayashi conta a história da personagem Yuko (Fusako Urabe), que recebe toda a sorte de insultos desde o início da projeção. Gratuitamente, a moça é agredida verbalmente, por vezes até fisicamente, por seus antigos amigos e namorado, pelos colegas de trabalho -- que perde já nas primeiras cenas – e por desconhecidos na rua.
Mesmo em sua casa, o tormento não tem fim. Sua mãe (Nene Otsuka) não a defende, permanecendo omissa. O pai (Ryuzo Tanaka) dá a entender que está conformado com a situação, pedindo paciência à filha. Yuko isola-se em seu quarto, o único refúgio aparente.
De fato, o diretor não apresenta claramente o motivo da rejeição. Entre os xingamentos e telefonemas anônimos perturbadores, seu perseguidores questionam a protagonista: “Você gosta de fazer o que quer, não?”. Presume-se, portanto, que a independência da protagonista, ao decidir viajar sozinha para o Iraque, foi uma afronta social. O seqüestro, no fim, teria sido apenas mais uma das punições que ela no fundo mereceria.
A vida de Yuko complica-se ainda mais quando seu pai, responsabilizado por “estragar” a filha, é demitido de seu trabalho. As medidas desesperadas que tomarão frente a essa desastrosa situação levarão a protagonista ao impensável: não terá um futuro melhor no Iraque?
A escolha do diretor Kobayashi em não usar iluminação, trilha sonora ou cenografia, grande silêncios, confere tom documental a tudo que se vê na tela. Uma busca por tornar este romance o mais verossímil possível.
No entanto, não se conta, por exemplo, que Yuko é uma composição a partir da história das três vítimas reais: a jovem pesquisadora Noriaki Imai, 18; o voluntário de ajuda Nahoko Takato, 34; e o fotógrafo Soichiro Koriyama, 32. Esse dado é importante para entender o contexto do roteiro, que peca em não dar detalhes importantes durante os créditos iniciais.
Os três foram seqüestrados em uma estrada que liga Amã a Bagdá, por um grupo chamado Brigadas Mujahedeen, que haviam ameaçado matá-los caso o governo japonês se recusasse a retirar suas tropas do Iraque. Dias depois, eles foram libertados e voltaram para o Japão, onde se tornaram párias sociais. Yuko é, assim, a memória dessas três vítimas.
