20/07/2026
Documentário

O Advogado do Terror

Advogado, Jacques Vergès começa sua carreira defendendo rebeldes argelinos, que usam o terrorismo para obter a independência da França. Ao longo dos anos, torna-se defensor de ditadores, nazistas e terroristas internacionais, como Carlos, o Chacal.

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É possível pensar muito em ética ao assistir a este documentário, que focaliza uma personalidade tão fascinante quanto dúbia. Trata-se do advogado Jacques Vergès, cuja especialidade ao longo da vida foi colecionar clientes que vários colegas recusariam – como o terrorista internacional Carlos, o Chacal, o carrasco nazista Klaus Barbie e o carniceiro sérvio Slobodan Milosevic.

Filho de uma professora vietnamita e um médico da Ilha de Reunião (possessão francesa no Oceano Índico), nascido na Tailândia, Vergès encontrou-se com a política no final dos anos 50, quando se tornou defensor de Djamila Bouhared. A bela moça acabava de ser condenada à morte por realizar atentados na Argélia contra os colonizadores franceses. Vergès não só salvou sua vida, e de outros militantes argelinos, como casou-se com ela. Esta seria a primeira vez que se envolveria com uma cliente, mas não a última.

Marido de uma heroína nacional argelina, o advogado ficou em sua sombra. Limitado a defender tediosos casos de divórcio, acabou rebelando-se. Sua personalidade midiática procurou outras causas de impacto político fora das fronteiras argelinas. Progressivamente, ele foi colocando-se a serviço de palestinos, cambodjanos, alemães, boa parte deles envolvidos em atos de terrorismo. Como a alemã Magdalena Kopp, mulher de Carlos, por quem o advogado também se apaixonou.

Conservado em seus 83 anos, articulado e bem-falante, Vergès não é figura simples de confrontar – e o diretor do filme, Barbet Schroeder (O Reverso da Fortuna), aliás, não tenta isso em nenhuma cena. O projeto do filme é enfileirar depoimentos, intercalando-os entre longas conversas com o próprio advogado. Schroeder parece querer deixar o julgamento do personagem para os espectadores. Inclusive em questões como o misterioso paradeiro do advogado entre os anos 1970 e 1978 – quando se calcula que esteve sob a proteção do ditador Pol Pot, seu amigo, no Cambodja, ou no Oriente Médio. Ele mesmo prefere não esclarecer o que fez nesses anos.

Embora seja elogiável a atitude do diretor de não procurar conduzir, o ritmo do filme ressente-se deste modelo de “cabeças falantes”. Sem narração e com um uso bastante econômico de imagens de arquivo para contextualizar melhor os complexos fatos abordados, alguns espectadores terão dificuldade em posicionar-se – e aí há também o risco de cair na lábia de Vergès.

Há um inegável poder de sedução nas palavras do advogado, que começou sua carreira a serviço de militantes políticos que recorreram à violência, que é sempre discutível, mas tinham alguma causa. Paulatinamente, o que parece ter-lhe acontecido é associar-se a clientes identificados com a violência como arma a serviço do banditismo puro e simples – inclusive com fins econômicos, como a maioria dos movimentos terroristas atuais.

Se há, portanto, um valor neste documentário, premiado com o César da categoria em 2008, é justamente enxergar essa diluição da política, transformando-se, tanto os terroristas quanto seu defensor, apenas em pessoas a serviço do dinheiro – seja qual for a forma pela qual ele seja obtido. O advogado, aliás, parece ter vida muito confortável. E nenhum dilema moral.

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