Na verdade, a referência ao carro no título já rendera problemas antes mesmo de o filme começar, ainda que o ponto de partida fosse uma peça de teatro já montada e vencedora do prêmio Shell, Nossa Vida Não Vale um Chevrolet, do dramaturgo paranaense radicado em São Paulo Mário Bortolotto.
Poucas semanas antes das filmagens, a GM não autorizou o uso da marca Chevrolet, que se manteria no título do filme. A produção pensou, então, neste novo nome. Opala, que também é um carro da GM, foi aceito pela empresa por ser um produto, não uma marca, e já estar fora de linha.
O espírito da peça, enraizada tanto em Nelson Rodrigues quanto em Plínio Marcos, permanece o mesmo. É um universo de deserdados, de deslocados sociais e morais que constitui a família central do filme, formada pelos irmãos Monk (Leonardo Medeiros), Lupa (Milhem Cortaz), Slide (Gabriel Pinheiro, que fez o mesmo papel no teatro) e Magali (Maria Manoella). O pai (Paulo César Pereio) está morto mas conversa com os filhos em aparições constantes.
Monk e Lupa são ladrões de carros, com nítida preferência pelos Opalas. Monk exerce o “trabalho” com amargura, deixando para trás um passado de boxeador de algum talento. Lupa, ao contrário, gosta do que faz e não tem nenhum outro sonho ou ambição. Slide, o caçula, também leva jeito para o boxe, mas sente-se atraído para a vida marginal dos irmãos.
Magali, a única mulher do clã, é musicista de gosto clássico, mas toca órgão numa churrascaria. Ela não aprova a vida criminosa dos irmãos, tenta manter alguma dignidade, mas no geral mostra-se apática, rendida.
Uma personagem surreal neste universo é Silvia (Maria Luisa Mendonça), uma mulher que seduz sucessivamente os três irmãos, seguindo sempre um mesmo ritual, em que ela mostra uma fotografia, abre uma garrafa de vinho e fala de coisas aparentemente desconectadas com a situação presente.
Silvia e o fantasma do pai constituem, assim, este contraponto à exasperante dureza deste universo em que se move esta família desesperada, cuja falta de gana e destino é explorada ainda por Gomes (Jonas Bloch). A circulação do filme em festivais coincidiu com a divulgação de duras críticas de Bortolotto ao roteiro do filme, assinado por Di Moretti, que foi contratado pelo diretor. A polêmica vem sendo desmontada pelo experiente e premiado Di (autor dos roteiros de Cabra Cega, Latitude Zero e outros), que menciona sempre a realização de um “desrespeito saudável” à obra. O diretor Reinaldo Pinheiro admitiu as diferenças entre as visões de Di e Bortolotto, que ele mediou. Mas garantiu que o dramaturgo viu o filme e gostou, embora tenha discordado tanto da escolha do roteirista quanto das modificações de seu texto original. O diretor afirmou que foi sua a opção pelo roteirista e que ele é amigo dos dois.
